JF online junho de 2026
19 de junho de 2026

Três apontamentos sobre a derrota do pacote laboral

01 de julho, 2026

Nem só do Mundial de futebol viveram as notícias de abertura dos telejornais ou os títulos da imprensa no passado dia 19 de junho: o governo da AD viu a derrota do seu pacote laboral – abundantemente aplaudido pelas confederações patronais – na Assembleia da República. Na memória ficou também a justa satisfação dos sindicalistas da CGTP-IN nas galerias de São Bento. Como realçou desde logo a central unitária, "foram onze meses de uma luta que caracterizámos como exigente, urgente e prolongada, e os trabalhadores estiveram à altura do momento. Que este exemplo seja potenciado para os desafios que temos pela frente, para a melhoria das condições de trabalho e de vida, para a construção de um país onde seja possível a realização pessoal de cada um, para um novo futuro que, liberto do retrocesso que o pacote laboral impunha, avance rumo à conquista de novos direitos”. 

Numa nota emitida no próprio dia ("Vale a pena lutar! Derrotámos o Pacote Laboral!"), a CGTP-IN sintetiza o que de mais importa dizer sobre o expressivo acontecimento:

Primeiro: quem derrotou o pacote laboral?

A luta dos trabalhadores desenvolvida ao longo dos últimos onze meses derrotou o pacote laboral do governo PSD/CDS e das confederações patronais.

Foram as duas grandes greves gerais de 11 de dezembro e 3 de junho, mas também a manifestação de 20 setembro, a marcha nacional de 8 de novembro, as mais de 190 mil assinaturas de rejeição do pacote laboral entregues no dia da manifestação a 13 de janeiro, a manifestação nacional de 28 de fevereiro, a manifestação de 17 de abril, na concentração frente à Assembleia da República, em dia de discussão da proposta do governo, foram os milhares de reuniões e plenários realizados em todos os setores e os milhares de ações e greves no setor privado e público, por todo o país, que determinaram a derrota do pacote laboral. 

Foi toda esta luta, inclusivamente, que obrigou alguns que começaram por elogiar as alterações à legislação laboral e defender a sua necessidade a acabarem por votar contra a proposta do governo, não querendo ficar conotados com uma aprovação que desejavam. Em todo esse processo de luta, apurou-se a consciência das ameaças do pacote laboral; em todo o processo de luta, docentes e investigadores tiveram uma relevante participação, contribuindo para rechaçar o ataque aos trabalhadores que, mais cedo do que tarde, a todos atingiria.

Com o chumbo na Assembleia da República, ficou claro que a posição que a CGTP-IN assumiu desde início encontrou nos trabalhadores a compreensão e a força para derrotar a insistência do governo e dos patrões em degradar ainda mais as condições de trabalho e de vida e desequilibrar as relações de trabalho a seu favor.

Segundo: quem merece uma forte saudação?

A CGTP-IN saúda os milhões que trabalham no nosso país e que organizados, unidos e em luta demonstraram que vale a pena lutar e que assim condicionaram, justamente, todo o processo na Concertação Social e na Assembleia da República, e obrigaram, mesmo entre os que até à última da hora tudo fizeram para viabilizar o pacote laboral, a terem de optar por não viabilizar a retrógrada proposta de lei do governo.

Não menos, há que saudar todos os sindicatos filiados na CGTP-IN, a grande central sindical dos trabalhadores em Portugal, bem como os sindicatos não filiados e independentes que se envolveram neste importantíssimo combate.

Terceiro: e agora, com que objetivos vai continuar a intervenção e a luta sindical?

A CGTP-IN reafirma que urge elevar direitos, que se exige um aumento geral e significativo de todos os salários e pensões, nomeadamente com aumentos intercalares que façam face ao aumento do custo de vida. Estas são matérias cruciais para valorizar os trabalhadores, fazer evoluir a sua condição e, ao mesmo tempo, promover o desenvolvimento do país.

Em cada empresa e local de trabalho, em todos os setores, a unidade e luta dos trabalhadores será o elemento decisivo para romper com a política que tem sido imposta pelos governos que privilegiam os interesses e os lucros da minoria em detrimento das condições de vida da maioria. Trata-se de preocupações e objetivos que devem mobilizar, também, os educadores, professores e investigadores.

É possível, urgente e necessário elevar os direitos e os salários no nosso país, promover uma melhor repartição da riqueza que já hoje é criada, revogar as normas gravosas da legislação laboral que já hoje tanto prejudicam quem trabalha, permitir estabilidade e horários dignos e avançar para que todos os que querem viver e trabalhar em Portugal encontrem as condições que lhes permitam realizar-se no nosso país.

Fundamental para que tal suceda, é possível, urgente e necessário melhorar os serviços públicos e as funções sociais do Estado, seja ao nível da Escola Pública, do SNS ou, entre outras áreas, no direito à habitação. E estas são questões que devem continuar a mobilizar todos os portugueses, trabalhadores no ativo ou aposentados/reformados, com destaque para os docentes e investigadores.


Resolução do Conselho Nacional da CGTP-IN:

"Dar seguimento à dinâmica da enorme luta contra o Pacote Laboral"

"É possível, urgente e necessário melhorar os serviços públicos e as funções sociais do Estado, seja ao nível do SNS, da Escola Pública ou, entre outras áreas, do direito à habitação. É necessário defender a Segurança Social do ataque a que está sujeita", sublinha a resolução aprovada pelo Conselho Nacional da CGTP-IN no passado dia 25 de junho.

"A luta dos trabalhadores desenvolvida ao longo dos últimos onze meses derrotou o pacote laboral do governo PSD/CDS e das confederações patronais", realça o órgão máximo da Central unitária entre Congressos, que observa:

"Foi a luta que condicionou todo o processo, quer na concertação social, quer na Assembleia da República. Foi a luta que isolou o governo e os seus aliados e criou as condições para a derrota do Pacote Laboral. Mesmo aqueles que, até à última da hora, tudo fizeram para o viabilizar, viram-se obrigados, perante a força da mobilização e da resistência dos trabalhadores, a rejeitá-lo." 

Continuar a luta – juntar mais forças para resistir, defender direitos e abrir caminho para avanços, é agora a perspetiva que se impõe. Para a Inter...

  • "É possível, urgente e necessário elevar os direitos e os salários no nosso país, promover uma melhor repartição da riqueza que já hoje é criada; revogar as normas gravosas da legislação laboral, que tanto prejudicam quem trabalha; dar estabilidade e horários dignos; libertar a contratação coletiva da chantagem da caducidade usada pelos patrões para desvalorizar salários e limitar direitos".
  • "É possível, urgente e necessário melhorar os serviços públicos e as funções sociais do Estado, seja ao nível do Serviço Nacional de Saúde, da Escola Pública ou, entre outras áreas, do direito à habitação. É necessário defender a Segurança Social do ataque a que está sujeita, quer com o desvio das contribuições do trabalho ao serviço da especulação financeira, quer com a liquidação de 13 prestações e a criação de uma prestação social única, numa linha de fragilização dos direitos sociais, quando o que urge é manter e reforçar os apoios sociais".


"A ofensiva é geral"

A CGTP-IN vai "prosseguir o firme combate a todos os ataques a direitos dos trabalhadores e das populações" e "enfrentar as ofensivas que se preparam contra a Segurança Social e a Constituição da República Portuguesa". 
"A ofensiva é geral", alerta a Central. "Para ser contrariada precisa do envolvimento de todos e, em particular, dos trabalhadores. Vamos dar seguimento à dinâmica da enorme luta contra o Pacote Laboral que, pelo seu desfecho, voltou a comprovar que a intervenção organizada e persistente dos trabalhadores e dos seus sindicatos de classe é um poderoso instrumento para a transformação no sentido da justiça social e do desenvolvimento".