JF online junho de 2026

Porque devemos sindicalizar-nos?

01 de julho, 2026

André Carmo [1]
Professor universitário e dirigente sindical no SPGL/FENPROF

Comecemos pelo óbvio: se há evidência clara é a de que quanto maior a expressão sindical, num sentido lato, menor a desigualdade na distribuição do rendimento. Embora centrada no contexto americano, a figura 1 mostra com clareza que, quando a densidade sindical era mais elevada – entre meados da década de 40 e o final da década de 50 do século passado –, a parte do rendimento que cabia aos 10% da população com maiores rendimentos era menor. Isto sucedeu porque os trabalhadores e as suas principais organizações representativas, os sindicatos, tinham mais força e mais capacidade para fazer valer a sua voz, conquistando direitos e fazendo avançar agendas progressistas que os beneficiaram em termos de rendimento e não só. Quando o movimento sindical era mais poderoso, as desigualdades eram menores.

 

Figura 1 – Desigualdade e força sindical nos Estados Unidos (1910s-2020s)[2]

Sabemos também que a desigualdade de rendimento se encontra intimamente ligada com um vasto conjunto de problemas sociais. Por exemplo, na figura 2 é possível observar uma associação forte entre níveis de confiança e desigualdade. Quanto maior a desigualdade menor a confiança interpessoal.

Figura 2 – Associação entre falta de confiança e desigualdade de rendimento[3]

O nível de democracia também está associado à desigualdade de rendimento e quanto maior esta for menor será aquele, como se pode ver na figura 3.

Figura 3 – Associação entre democracia e desigualdade de rendimento[4]

Por último, na figura 4 verifica-se que existe associação entre igualdade de oportunidades e desigualdade de rendimento, figurando também Portugal entre o leque de países onde uma maior percentagem de pessoas (mais de 40%) discorda da afirmação – «eu tenho igualdade de oportunidades» – e, na figura 5, a tendência repete-se para o nível de satisfação com a vida e a desigualdade de rendimento, embora o padrão não seja tão nítido.

Figura 4 – Associação entre igualdade de oportunidades e desigualdade de rendimento[5]

Figura 5 – Associação entre satisfação com a vida e desigualdade de rendimento[6]

Por isso, se aceitarmos os pressupostos de que existem relações: 1) de sentido inverso entre sindicalismo e desigualdade de rendimento; 2) entre desigualdade de rendimento e um leque muito diversificado de problemas sociais que importa resolver, então, o fortalecimento dos sindicatos e do seu papel na sociedade são condições fundamentais para melhorarmos as vidas de quem vive do seu trabalho.

Também por isso, não podemos deixar de olhar com bastante preocupação para a diminuição dos níveis de sindicalização verificada ao longo do período democrático em Portugal. Sem surpresa, verifica-se que a distribuição do rendimento em Portugal, sobretudo a partir dos anos 80 (contra-revolução neoliberal promovida pelos governos de direita liderados por Cavaco Silva com o apoio de uma geração de influentes economistas neoliberais[7]), se tornou mais concentrada (Figura 6). O período entre a revolução de Abril e a adesão à Comunidade Económica Europeia foi aquele em que a desigualdade foi menor e, hoje, os 10% mais ricos têm mais de 35% do rendimento e a metade mais pobre apenas cerca de 20% do rendimento.

Figura 6 – Desigualdade na distribuição do rendimento (1936-2024)[8]

A distribuição da riqueza é ainda mais desigual e, de facto, em Portugal é isso que sucede, com 1% da população a deter cerca de um quarto da riqueza nacional, 10% dos mais ricos concentram mais de 60% da riqueza, enquanto metade da população detém apenas 3%. As 50 famílias mais abastadas em 2025 detinham um património superior a 47,7 mil milhões de euros, equivalentes a 16,5% do PIB[9].

Tendo em conta este cenário desfavorável aos trabalhadores, apresentam-se três argumentos chave, não mutuamente exclusivos, para tentar persuadir as pessoas que não são sindicalizadas, a decidirem fazê-lo. No fundo, para que se consiga responder à seguinte questão: porque devemos sindicalizar-nos? É nossa convicção que, mesmo não sendo panaceia para todos os males, sobretudo num contexto de hegemonia do capitalismo neoliberal, se trata de um gesto político e cultural que pode ajudar a mudar o atual estado de coisas.

 

1. Porque numa sociedade atomizada o sindicalismo é um lugar de camaradagem

A tendência de isolamento, atomização e deslaçamento social, cívico e político das sociedades contemporâneas é um fenómeno conhecido desde há vários anos. Já em 2000, num tão influente quanto polémico livro intitulado Bowling Alone[10], Robert D. Putnam assinalava o declínio das práticas de sociabilidade, religiosidade, militância, associativismo e ação coletiva num vasto leque de contextos, bem como de confiança social e interpessoal. E nem a explosão de possibilidades trazida pela internet, redes sociais e outras modalidades de contacto e comunicação parece inverter esta tendência.

No limite, no contexto do mundo ocidental onde nos inserimos, não andamos longe de uma certa deriva niilista diagnosticada por Emmanuel Todd em a Derrota do Ocidente[11] e magistralmente corroborada por Michel Houellebeq que, n’O Mapa e o Território[12], inverte o célebre princípio cartesiano – penso, logo existo –, associando ao irracionalismo e à militância anti-intelectual de uma parte crescente da classe trabalhadora o princípio “não existo, logo não penso”. Esta sensação difusa de deslaçamento, que tem uma inegável relação com a desregulação e a precarização das condições de trabalho, impõe-se, instituindo-se como regra o paradoxo de estarmos mais hiperconectados do que nunca mas, simultaneamente, vivermos mais sós[13].

Isto acontece porque o neoliberalismo nos capturou a todos e, como assinala o psicanalista Jorge Alemán[14], «a ideologia neoliberal, com a sua tendência para a fragmentação e a atomização do sujeito, conseguiu dissolver aquelas formas de antagonismo que tinham a capacidade de organizar politicamente a indignação e o mal-estar (…) o exacerbar do individualismo de massas gerou um impulso para automatismos mentais cada vez mais desligados da memória e da possibilidade de reinscrever a história no campo do simbólico». De resto, nesta mesma linha, Ruben Casara[15] afirma que o narcisismo neoliberal «leva ao desaparecimento do valor da política (…) [e] valores e ideias como solidariedade, comum e espaço público perderam importância para o indivíduo (…) o que significa a perda do interesse das pessoas pelos outros e pelo coletivo».

Mas o sindicalismo oferece uma resposta. Porquê? Porque num sindicato, as pessoas tratam-se por camaradas. E esta palavra não é um mero detalhe. Pelo contrário, é plena de significado político e ingrediente fundamental da construção de um coletivo. Em Camarada: um ensaio sobre o pertencimento político[16], Jodi Dean explica como.

«Camarada dá nome a uma relação caracterizada por uma condição comum, pela igualdade e pela solidariedade[17]». No quadro do capitalismo, acrescenta a autora, os trabalhadores não são camaradas por definição; pelo contrário, tornam-se competitivos, egoístas e temerosos. Afinal de contas, dividir para reinar, semeando a discórdia, é um dos mandamentos do capital. Como na canção “working class hero”, de John Lennon, que diz: «There's room at the top they are telling you still / But first you must learn how to smile as you kill / If you want to be like the folks on the hill» [Há lugar no topo continuam a dizer-te / Mas primeiro tens de aprender a sorrir enquanto matas / Se queres ser como os tipos lá de cima].

Pelo contrário, assinala Jodi Dean, «“Camarada” aponta para um modo de pertencimento oposto ao isolamento, à hierarquia e à opressão das formas burguesas de relação, particularmente do trabalho e da família sob o capitalismo[18]». Os camaradas, acrescenta ainda, «são aqueles que se encontram do mesmo lado de uma luta por um mundo igualitário emancipado[19]». E isto está longe de ser coisa pouca num mundo que nos inocula desde cedo com o “vírus” do individualismo e da competitividade, que nos divide e nos lança uns contra os outros. Exemplo maior disto é o modo como os trabalhadores imigrantes são utilizados como arma de arremesso pela extrema-direita neofascista para gerar ressentimento e ódio entre trabalhadores, deixando a classe dominante passar entre os pingos da chuva. Como afirma Manuel Afonso em Rebenta a Bolha! Autoajuda para uma esquerda deprimida[20], «os imigrantes tornaram-se o alvo da raiva e rancor causado por uma economia que deixou a maior parte dos portugueses para trás. Foram transformados pelos políticos, a comunicação e por instituições do Estado numa metáfora das suas próprias falhas, o avesso da corrupção e desigualdade, para onde canalizam a raiva do povo».

«A relação entre camaradas [acrescenta ainda Jodi Dean] é mediada pela fidelidade a uma verdade[21]». Como “não se pode ser neutro num comboio em movimento”[22], a camaradagem implica que escolhamos qual é o nosso lado da luta, qual é a verdade política a que somos fiéis e, mais do que isso, através da ação organizada, a verdade que queremos ajudar a ganhar forma. Camaradas «demonstram fidelidade por meio de trabalho político; por meio de engajamento coordenado e disciplinado[23]». Não basta fazer trabalho, este tem de ser organizado em comum porque, como remata Jodi Dean «ninguém é camarada sozinho[24]».

 

2. Porque o sindicalismo (re)constrói a consciência de classe

Numa entrevista dada ao jornal Público no início de 2026, a propósito do avanço galopante da extrema-direita e o do neofascismo na Europa, o sociólogo francês Didier Eribon afirmava «estamos a pagar o preço pelo desmantelamento da noção de classe»[25]. A narrativa de que cada um de nós é responsável por si, que abordámos anteriormente, serviu para legitimar «o desmantelamento de serviços públicos e o corte nos direitos laborais». E esta erosão do sector público, empurra as pessoas raivosas para a extrema-direita e para a cultura de ódio. É bom que nos lembremos disso sempre que deixamos de nos pensar como trabalhadores e adoptamos, mesmo que de forma não intencional, a terminologia neutralizante dos colaboradores, do empreendedorismo, da resiliência ou, como agora se diz, dos talentos que é preciso captar, reter, promover e valorizar.

Ao mesmo tempo, assistiu-se ao crescimento da força das agendas identitárias, centradas na valorização de outras categorias como, por exemplo, o género, a idade, a etnia, a orientação sexual, etc. Apesar de bem intencionada, esta fragmentação pode ter sido mais prejudicial do que benéfica para a defesa dos interesses de quem vive do seu trabalho. Não por acaso, a direita anti-trabalho adora promover esta pulverização ou tribalismo identitário, esta valorização de múltiplas marginalidades, numa lógica mais celebratória e consumista que combativa, claro está. Aquilo a que se convencionou chamar agenda woke, ganhou terreno no espaço mediático e académico, com a sua exaltação de determinadas virtudes morais, práticas de cancelamento e polémicas em torno de práticas de apropriação cultural, prejudicando a defesa dos interesses dos trabalhadores.

Em A Esquerda não é Woke[26], Susan Neiman defende que não nos devemos deixar enredar nesta armadilha retórica, que também tem sido visto como sintomática da captura das “políticas de identidade” pelas elites[27]. Quanto mais não seja, porque as políticas identitárias woke, colocam a tónica naquilo que nos diferencia uns dos outros e não naquilo que nos une. Ora, tradicionalmente, esta tem sido a visão política da direita e não da esquerda (recorde-se a distinção seminal entre esquerda e direita proposta por Norberto Bobbio, para quem a esquerda considera que os seres humanos são mais iguais do que desiguais e a direita entende o contrário, isto é, somos todos mais desiguais que iguais[28]). Como ela própria interroga: consideram-se mais essenciais os atributos com que se nasce ou os princípios que se defendem? Por outro lado, Vivek Chibber, crítico da viragem cultural e da chamada “nova esquerda”, chama ainda a atenção para o facto de que, embora não haja nada de errado com as margens, a noção de classe é politicamente relevante porque é uma categoria estruturalmente central no capitalismo[29].

Neste contexto, a disputa pelo poder reside justamente no centro do sistema e não nas margens. E no centro encontra-se a disputa entre capital e trabalho. Por conseguinte, para que a sua agenda e o seu projeto voltem a ter a influência social de outrora, a esquerda tem de sair das margens para ocupar novamente o centro. É aí que reside o poder. Como sublinha Nick French «a razão para considerar as culturas de solidariedade de classe como particularmente centrais não é porque consideramos, de forma chauvinista, que a opressão de classe é moralmente mais significativa do que outras hierarquias sociais, como acusam alguns críticos mal-humorados. É porque a organização em torno de critérios de classe é a única estratégia viável a longo prazo para resistir e, eventualmente, superar o domínio capitalista, minando assim a base material da opressão racial e de outras formas de opressão»[30].

E é aqui que surgem os sindicatos. Como locais de formação de consciência de classe, de desenvolvimento de uma cultura política centrada nessa categoria social e no trabalho como denominador comum, como constante universal de todos os explorados, dominados e marginalizados que lutam por justiça social.

A consciência de classe, encontra-se, aliás, segundo Eve Livingston[31] (2021: 19),

enraizada nos alicerces do movimento sindical e é essencial para a sobrevivência do movimento e para qualquer avanço dos interesses da classe trabalhadora. Não é necessariamente a primeira coisa que atrai as pessoas aos sindicatos, mas pode muitas vezes ser o que as faz ficar: os sindicatos bem-sucedidos terão uma estratégia que inclui reter os membros que chegam com uma queixa ou à procura de aconselhamento, e conduzi-los através do trabalho de colectivização e organização, construindo a consciência de classe no processo. Este trabalho assume muitas formas, nem todas estruturadas ou formais. Às vezes são as conversas que se têm num evento social, ou a formação ministrada a representantes recém-eleitos no local de trabalho, e outras vezes é a discussão de uma moção numa reunião de filial ou em workshops específicos concebidos para formar novos ativistas. Pode ser ouvir sindicalistas experientes a recordar os velhos tempos, ou pode ser uma conversa pelo WhatsApp. (…) Seja qual for a forma que a nova geração escolha para promover os seus interesses de classe, os sindicatos são um campo de treino inestimável para os jovens trabalhadores. Em conversas com amigos que fiz através do ativismo e da organização, temos frequentemente descrito a nossa consciência política como um interruptor de luz que não se consegue desligar; uma Caixa de Pandora de injustiça e raiva. Os sindicatos formam cidadãos da classe trabalhadora que passam toda a vida sem se contentarem com o status quo nem se culparem pela sua sorte, e isso é, sem dúvida, uma força poderosa.

 

3.Porque numa sociedade doente o sindicalismo é um “bom remédio”

No neoliberalismo, a precariedade e a fragilização das relações laborais, a perda de autonomia e de autoridade (expressão mesma de interiorização da coerção, no limite, de “servidão voluntária”), num contexto de intensificação dos ritmos de trabalho e da vida e crescentes exigências sobre os trabalhadores, que se estendem para além do espaço do trabalho propriamente dito – dado que cada trabalhador tem necessariamente de ser a melhor versão de si próprio, um gestor/empreendedor de si (e tanto as avaliações individuais de desempenho como o discurso meritocrático assente na utilidade, na bibliometria, nos rankings e na quantificação insana de tudo aquilo que se faz num trabalho, exercem uma pressão constante neste sentido) –, gera uma grande dose de sofrimento psíquico.

O arsenal de instrumentos e ferramentas gestionárias infiltrou-se nos locais de trabalho – por exemplo, através do discurso e da prática da nova gestão pública com a sua obsessão com a excelência e o desempenho –, instituindo a competição tóxica entre pares como regra, corroendo a colegialidade dos locais de trabalho. Como assinalam os psiquiatras Christophe Dejours e Florence Bègue[32], o

método de avaliação quantitativa é assim falso e gera, consequentemente, sentimentos de injustiça que causam efeitos deletérios à saúde mental. O mais grave, contudo, são provavelmente os efeitos desse método sobre o trabalho coletivo, sobre a cooperação e sobre o viver-junto. A avaliação individualizada dos desempenhos introduz a concorrência entre serviços, entre departamentos, entre sucursais, mas também entre os próprios assalariados. Se juntarmos o resultado da avaliação individualizada do desempenho a um sistema de bonificação (promoção, gratificação, aumento salarial, ou qualquer outro critério de recompensa), o clima se degrada rapidamente entre os concorrentes (…) Não é apenas a cooperação que sofre, mas as relações de respeito entre colegas, a lealdade, a confiança, a amabilidade, a ajuda mútua também se deterioram... Cada um é levado, aos poucos, a adotar comportamentos que, no fundo, reprova. Pois é a solidariedade mesma que está sendo esmigalhada, triturada e, por fim, destruída. No lugar do convívio e do saber-fazer, a duplicidade, a dissimulação e a má-fé tornam-se regra (…) No fim, cada qual se encontra só, no meio da multidão, em um ambiente humano e social com características de hostilidade. A solidão e o abatimento se instalam no mundo do trabalho e isso muda radicalmente o cenário, no que diz respeito à relação subjetiva frente ao trabalho e à saúde mental.

Num outro trabalho[33], a propósito de ciência, Dejours acrescenta ainda o seguinte:

a avaliação da atividade científica está longe de ser satisfatória. Por um lado, ela apenas avalia os resultados da pesquisa, não o trabalho, os fracassos, o sofrimento, a mobilização subjetiva e a tenacidade que ela própria implica. Por outro, pelos critérios de avaliação, a ciência gera efeitos perversos. A corrida desenfreada por publicações e comunicações científicas, e principalmente a multiplicação de revistas, suportes especializados e colóquios, beira o absurdo. A avaliação é acompanhada de uma constante incitação à valorização da pesquisa. Pesquisadores se esgotam para reproduzir em uma quantidade desmedida publicações sobre o mesmo tema, o que no fim das contas prejudica o próprio trabalho da pesquisa.

Neste contexto, os valores fundamentais da cultura neoliberal que norteiam o funcionamento das sociedades contemporâneas, instituem novas subjetividades, novas normas sociais, modos de agir e pensar que, focados na optimização, na realização e no sucesso individual[34], produzem sofrimento psíquico (ex: ansiedade, depressão, esgotamento, TDAH, etc.). Como sugere Vladimir Safatle[35], «embora essa nova mentalidade resulte em sofrimento para os sujeitos, carregados de expectativas, descolados de suas condições objetivas e totalmente responsabilizados por seus fracassos, ela é capaz de mobilizar afetos e ganhar adesão social».

A resposta passa necessariamente pela politização desta faceta do trabalho, ou seja, pelo reconhecimento de que os problemas de saúde mental são um problema social e coletivo indissociável dos valores sociais contemporâneos que importa ultrapassar.

Neste contexto, ao criar espaços de escuta, partilha e ação coletiva, o sindicalismo desempenha uma função terapêutica e preventiva. A possibilidade de nomear o mal-estar e de o transformar em reivindicação política constitui um ato de resistência à patologização individual do sofrimento que o neoliberalismo instituiu como regra.

Ao entrarem nos locais de trabalho, os sindicatos e os seus dirigentes, “furam” o ambiente tóxico e de opacidade que o neoliberalismo instituiu como norma, revelando aquilo que, na perspectiva de muitos “mandarins”, ficaria melhor oculto. Todos aqueles que preferem que a democracia fique à porta encontram nos sindicatos um “pauzinho na sua engrenagem”.

 

Notas finais

As possibilidades de o sindicalismo se poder constituir enquanto lugar de camaradagem, de formação de cultura política e consciência de classe e de promoção da saúde mental dos trabalhadores, constituem um bom ponto de partida para o trabalho sindical. Mais do que isso, em conjunto, traduzem já uma potencial matriz de legitimação do papel que os sindicatos podem desempenhar na sociedade, num contexto de enormes retrocessos a todos os níveis.

Para além de contribuírem para reequilibrar as relações capital-trabalho num sentido que é favorável aos trabalhadores, os sindicatos são também uma primeira linha de defesa contra a ofensiva protagonizada pela extrema-direita neofascista mais acirrada. Hoje, como no passado, os sindicatos são atores cruciais na luta por um futuro melhor. Sindicalizemo-nos, pois, e desafiemos outros a fazê-lo!


[1]    Texto elaborado a partir da intervenção realizada no Debate “Liberdade da ação sindical – um direito constitucional ameaçado”, promovido pelo Centro de Formação José Salvado Sampaio no dia 29 de Abril de 2026. Naturalmente, tem como referência o contexto sindical em que me insiro, isto é, de forma mais direta, o SPGL/FENPROF, e num sentido mais lato, a FCSAP e a CGTP-IN.

[2]    Ver Blanc E (2025). We Are the Union: How Worker-to-worker Organizing is Revitalizing Labor and Wining Big. University of California Press, p. 2.

[3]    Ver Pickett K, Gauhar A, Wilkinson R & Sahni-Nicholas P (2024) The Spirit Level at 15. London: The Equality Trust. DOI: https://doi.org/10.15124/yao-de9s-7k93, p. 16.

[4]    Ibidem, p. 17.

[5]    Ibidem, p. 20.

[6]    Ibidem, p. 27.

[7]    Ver, por exemplo, Rodrigues J (2022) O neoliberalismo não é um slogan. Tinta-da-China.

[8]    Disponível em: https://wid.world/country/portugal/ (acedido a 27 de março de 2026).

[9]    Ver https://sicnoticias.pt/economia/2026-04-17-video-desigualdade-estrutural-em-portugal-cresce-e-pressiona-classe-media-fac00c0a (acedido a 27 de abril de 2026).

[10]  Putnam R D (2020) Bowling Alone: the collapse and revival of american community [revised and updated]. Simon & Schuster.

[11]  Todd E (2025) A Derrota do Ocidente. Principia.

[12]  Houellebecq M (2022) O Mapa e o Território. Alfaguara Portugal.

[13]  Ver https://www.publico.pt/2026/04/19/sociedade/entrevista/solidao-ameaca-democracia-pessoas-perdem-capacidade-empatia-2171789 (acedido a 27 de abril de 2026).

[14]  Alemán J (2025) Ultraderechas: notas sobre la nueva deriva neoliberal. Ned ediciones, p.49.

[15]  Casara R (2021) Contra a miséria neoliberal. Autonomia Literária, p. 137.

[16]  Dean J (2021) Camarada: um ensaio sobre pertencimento político. Boitempo.

[17]  Ibidem, p. 98.

[18]  Ibidem, p. 99.

[19]  Ibidem, p. 105.

[20]  Afonso M (2026) Rebenta a Bolha! Autoajuda para uma esquerda deprimida. Zigurate, p. 21.

[21]  Dean J (2021) Camarada: um ensaio sobre pertencimento político. Boitempo, p. 123.

[22]  Glosando Zinn H (1994) You can’t be neutral on a moving train. Beacon Press.

[23]  Dean J (2021) Camarada: um ensaio sobre pertencimento político. Boitempo, p. 128.

[24]  Ibidem, p. 130.

[25]  Ver https://www.publico.pt/2026/01/04/culturaipsilon/entrevista/didier-eribon-pagar-preco-desmantelamento-nocao-classe-2159730 (acedido a 27 de abril de 2026).

[26]  Neiman S (2024) A Esquerda não é Woke. Presença.

[27]  Táíwò O (2022) Elite Capture: How the Powerful Took Over Identity Politics (and Everything Else). Pluto Press.

[28]  Bobbio N (1995) Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política. Editora da Universidade Estadual Paulista.

[29]  Ver https://jacobin.com/2017/03/abcs-socialism-working-class-workers-capitalism-power-vivek-chibber (Acedido a 27 de abril de 2026).

[30]  Ver https://jacobin.com/2023/01/vivek-chibber-the-class-matrix-cultural-turn-sociology-working-class-politics-marxism (acedido a 27 de abril de 2026).

[31]  Livingston E (2021) Make Bosses Pay: Why We Need Unions. Pluto Press, p. 19.

[32]  Dejours C, Begue F (2010) Suicídio e Trabalho. O que fazer? Paralelo 15, p. 45-46.

[33]  Dejours C (2008) A avaliação do trabalho submetida à prova do real. Editora Blucher, p. 88.

[34]  Ver Corbanezi Elton (2021) Saúde Mental, Depressão e Capitalismo. Editora Unesp Digital e https://aterraeredonda.com.br/saude-mental-neoliberalismo-e-subjetividade/ (acedido a 27 de abril de 2026).

[35]  Safatle Vladimir (2021) A economia é a continuação da psicologia por outros meios: sofrimento psíquico e o neoliberalismo como economia moral. In Vladimir Safatle, Nelson da Silva Júnior, Christian Dunker (orgs) Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico. Autêntica.

Figura 1 – Desigualdade e força sindical nos Estados Unidos (1910s-2020s)[2]

Sabemos também que a desigualdade de rendimento se encontra intimamente ligada com um vasto conjunto de problemas sociais. Por exemplo, na figura 2 é possível observar uma associação forte entre níveis de confiança e desigualdade. Quanto maior a desigualdade menor a confiança interpessoal.