Fernando Vicente
Redação do JF
Se Tom Cruise fosse professor em Portugal, provavelmente já teria recebido um e-mail da AGSE com o assunto: “Missão atribuída. Aceita-se silêncio administrativo como resposta.”
À semelhança da lendária IMF – Impossible Mission Force, a Agência para a Gestão do Sistema Educativo (AGSE) nasce com uma missão que o ministro Fernando Alexandre considera hercúlea: pôr ordem no caos, gerir tudo, resolver tudo, e fazê-lo com eficiência cirúrgica… sem que ninguém perceba muito bem como.
Tal como nas missões de Ethan Hunt, a AGSE promete agir nos bastidores. Substitui direções, funde serviços, apaga rastos burocráticos e surge com a grandeza de quem diz: — “Confiem, isto agora vai funcionar.”
O Ministério, através do seu ministro, assume o papel do chefe que aparece num ecrã tremido, explica a missão em dois minutos e termina com a frase clássica: — “Se algo correr mal, o Ministério negará qualquer conhecimento da existência desta agência.”
A AGSE entra então em ação. Concursos de professores? Infraestruturas? Orçamentos? Recursos humanos? Tudo numa só missão, como se o sistema educativo fosse um cofre digital a abrir em 30 segundos antes da explosão final. Só que, ao contrário do filme, não há banda sonora épica — apenas circulares informativas, plataformas digitais, legislação diversa e dispersa, ordens de serviço, e prazos apertados para cumprir.
Os professores observam como espectadores entediados de cinema: já viram este filme antes. Sabem que, enquanto a agência corre pelos telhados da administração pública, alguém ficará pendurado num cabo invisível chamado “transição”, à espera que o sistema não falhe.
Os pais perguntam se, no fim da missão, a escola dos filhos vai ter professores a tempo e horas. Os professores querem saber onde ficam colocados, se vão ter que fazer ainda mais horas extraordinárias, se o seu ECD vai ser implodido… E a AGSE, com óculos escuros e ar resoluto, responde: — “Isso está fora do âmbito da missão… por agora.”
No fim, como em qualquer Missão Impossível, a pergunta não é se a missão é difícil. É se era mesmo preciso fazê-la assim — com explosões administrativas, mudanças súbitas e a promessa eterna de que, desta vez, vai ser diferente. Porque, na educação, ao contrário do cinema, não há cenas cortadas. E quando algo corre mal, não se repete a cena. Vive-se com o resultado. E os professores estão cansados de tanta mudança. De tanta promessa. Querem politicas que tragam estabilidade e valorização para a carreira, que permitam a atração de novos professores. Missão aceite? Sim! A missão da luta dos docentes por melhores condições de trabalho. Luta difícil? Sim, mas não Missão Impossível, porque os professores reconhecem que quando a verdade está do seu lado, esta Missão é sempre possível!


