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Conferência de Imprensa - 5 de janeiro de 2026

Revisão do ECD ameaça desvalorizar a carreira, agravando (ainda mais) o problema da falta de professores

05 de janeiro, 2026

Inicia-se hoje o segundo período letivo e, na prática, o ano de 2026. Funcionando a Educação por anos escolares, de 1 de setembro a 31 de agosto, este é o momento adequado para analisar o primeiro período e projetar o segundo, muito especialmente no que se refere ao maior problema estrutural do nosso sistema de ensino –  a falta de professores –, bem como  para avaliar a atuação de quem tem a responsabilidade de o resolver – o Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI). É, ainda, tempo de projetar a ação e intervenção da FENPROF para os próximos meses.

Há muito que a FENPROF aponta o caminho para a resolução do problema da falta de professores: a valorização efetiva da carreira e da profissão docente, tornando-a mais atrativa, de forma a manter os que a exercem hoje, recuperar os que a abandonaram nos últimos anos e atrair jovens para a profissão. A revisão do Estatuto da Carreira Docente (ECD) deveria constituir uma oportunidade decisiva nesse sentido, com compromisso assumido pelo governo, ao mesmo tempo que a legislação laboral geral – o Pacote Laboral – está em discussão.

Não obstante o diagnóstico estar feito há muito, a falta de professores agravou-se, de forma significativa, já este ano letivo e o MECI, em vez de acelerar a revisão do ECD e de adotar medidas concretas de valorização da profissão docente, faz exatamente o contrário: além de impor excessiva lentidão, parece apontar para a desvalorização da carreira docente, contrariando não só as necessidades do sistema educativo, como as próprias declarações do ministro da Educação.

Isto, os professores não aceitarão!

 

I – A FALTA DE PROFESSORES AGRAVA-SE

Constatou-se, relativamente a idêntico período do ano letivo anterior, o agravamento do problema da falta de professores - mais horários para contratação de escola, menos professores disponíveis nas reservas de recrutamento (RR) e menos candidatos e candidaturas ao Concurso Externo Extraordinário (CEE).

 

Contratação de Escola

A contratação de escola é o mecanismo utilizado pelos Agrupamentos de Escolas / Escolas não Agrupadas quando a Reserva de Recrutamento não deu resposta aos pedidos de horários solicitados. São horários e horas letivas em falta naquele momento, isto é, alunos sem aulas. Portanto, o crescimento do número de horários em contratação de escola significa um crescimento do número de alunos sem aulas.

Comparando as ofertas em contratação de escola do primeiro período de 2024/2025 com as do primeiro período de 2025/2026, o resultado é o seguinte (Quadro 1).

Quadro 1 – Ofertas de contratação de escola

ANO

2024/2025

2025/2026

Aumento %

HORÁRIOS

9696

13 776 (até 26 dez)

42%

HORAS

162 849

252 598

55%

ALUNOS AFETADOS

826 350

1 114 675

35%

 

Importa ter em conta que muitos horários (e respetivas horas), ficando vagos na contratação de escola, repetem-se nas semanas seguintes, não se podendo, por isso, contabilizar os alunos afetados como total de alunos sem aulas durante o primeiro período. No entanto, como se verifica no Quadro 2, pode-se afirmar que, semanalmente, o número de alunos sem aulas ao longo do primeiro período oscilou entre os 109 000 no início do primeiro período e os 20 000 no final do mesmo, valores inaceitáveis num sistema educativo que se pretende inclusivo e de qualidade. 

Quadro 2 – Evolução semanal da contratação de escola

SEMANA

HORÁRIOS

HORAS

TURMAS

ALUNOS

25 A 29 AGO

401

8946

1947

48000

1 A 5 SET

2758

50749

11768

276700

8 A 12 SET

1372

23784

4880

112300

15 A 19 SET

1397

23983

4709

109000

22 A 26 SET

1283

22989

4319

101750

29 SET A 3 OUT

598

10552

1903

42140

6 A 10 OUT

861

15764

2838

64300

13 A 17 OUT

727

13455

2292

50950

20 A 24 OUT

570

10255

1797

38910

27 A31 OUT

584

10513

1840

41500

3 A 7 NOV

617

11494

2059

44100

10 A 14 NOV

373 (FALTOU 1 DIA)

6816

1226

27400

17 A 21 NOV

536

10456

1795

37750

24 A 28 NOV

543

10061

1859

41400

2 A 5 DEZ

386

7576

1195

25650

9 A 12 DEZ

302

5622

933

20500

15 A 19 DEZ

312

6248

942

20000

22 A 26 DEZ

151

304

472

10620

 

Conforme se constata no Quadro 1, o número de horários em contratação de escola é bastante superior ao verificado no ano letivo anterior. Este aumento implicou um significativo crescimento do número de horas a concurso, o que corresponde a um aumento da estimativa do número de alunos afetados,  mesmo considerando que um número significativo de horários foi disponibilizado várias vezes, em especial no caso do 1.º ciclo, grupo de recrutamento (GR) em que é mais difícil dividir horários e  é ilegal contratar docentes com habilitação própria.

Conforme se pode constatar no Quadro 3, relativamente aos grupos de recrutamento, houve um aumento de horários em oferta em praticamente todos eles. Sem surpresas, o GR 110 – 1.º CEB  foi o que teve maior número (tal como no ano passado), com 2951 horários (1078 no ano passado), seguido pelo  GR 910 – Educação Especial e  GR 300 – Português do 3º CEB / Secundário. Dos 13 776 horários, 7040 são horários anuais, 7388 são completos e 4415 são horários completos e anuais, distribuídos do seguinte modo:

         - 1248 do  GR 110 – 1.º CEB;

         - 21 do  GR 100 – Educação Pré-escolar;

         - 3146 são horários dos restantes GR.

 

Quadro 3 – Contratação de Escola por Grupo de Recrutamento

GRUPO DE RECRUTAMENTO /

2025/2026

2024/2025

100 - EDUCAÇÃO PRÉ-ESCOLAR

576

509

110 - 1º CICLO

2951

1078

120 - INGLÊS (1º CICLO)

305

 

200 - PORTUGUÊS E ESTUDOS SOCIAIS

331

 

210 - PORTUGÊS E FRANCÊS

137

 

220 - PORTUGUÊS E INGLÊS

447

316

230 - MATEMÁTICA E CIÊNCIAS NATURAIS

255

 

240 - EDUCAÇÃO VISUAL E TÉCNOLÓGICA

171

 

250 - EDUCAÇÃO MUSICAL

137

 

260 - EDUCAÇÃO FÍSICA

18

 

290 - EDUCAÇÃO MORAL E RELIGIOSA CATÓLICA

412

 

300 - PORTUGUÊS

1097

771

310 - LATIM E GREGO

0

 

320 - FRANCÊS

352

 

330 - INGLÊS

584

414

340 - ALEMÃO

6

 

350 - ESPANHOL

259

 

360 - LÍNGUA GESTUAL

14

 

400 - HISTÓRIA

439

389

410 - FILOSOFIA

215

 

420 - GEOGRAFIA

489

484

430 - ECONOMIA E CONTABILIDADE

278

 

500 - MATEMÁTICA

622

376

510 - FÍSICA E QUÍMICA

395

 

520 - BIOLOGIA E GEOLOGIA

343

 

530 - EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA

137

 

540 - ELECTROTECNIA

170

 

550 - INFORMÁTICA

759

763

560 - CIÊNCIAS AGRO-PECUÁRIAS

7

 

600 - ARTES VISUAIS

386

 

610 - MÚSICA

24

 

620 - EDUCAÇÃO FÍSICA

52

 

910 - EDUCAÇÃO ESPECIAL

1266

842

920 - EDUCAÇÃO ESPECIAL 2

53

 

930 - EDUCAÇÃO ESPECIAL 3

89

 

 

Quanto à distribuição da contratação de escola por distritos (Quadro 4), a situação é a que se apresenta de seguida. 

Quadro 4 – Contratação de Escola por distrito    

DISTRITOS

 

AVEIRO

296

BEJA

478

BRAGA

370

BRAGANÇA

122

CASTELO BRANCO

177

COIMBRA

324

ÉVORA

200

FARO

1467

GUARDA

97

LEIRIA

535

LISBOA

5453

PORTALEGRE

203

PORTO

699

SANTARÉM

639

SETÚBAL

2035

VIANA DO CASTELO

92

VILA REAL

122

VISEU

225

Outros

244

 

Sem surpresas, os distritos com mais horários em contratação de escola são os distritos de Lisboa (5453); Setúbal (2035); Faro (1467); Porto (699) e Santarém (639).

Olhando para a distribuição pelos concelhos dos três distritos mais afetados, a situação é a que se segue (Quadro 5).

Quadro 5 – Contratação de escola por concelhos     

 

LISBOA

SETÚBAL

FARO

QZP

CONCELHO

N.º H

QZP

CONCELHO

N.º H

61

ALBUFEIRA

113

45

AMADORA

585

46

ALCOCHETE

43

63

ALCOUTIM

2

45

CASCAIS

315

46

ALMADA

436

59

ALJEZUR

44

45

LISBOA

1266

46

BARREIRO

177

63

CASTRO MARIM

13

45

LOURES

853

46

MOITA

140

62

FARO

152

45

ODIVELAS

385

46

MONTIJO

88

60

LAGOA

79

45

OEIRAS

188

46

PALMELA

122

59

LAGOS

115

45

SINTRA

1203

46

SEIXAL

396

61

LOULÉ

242

45

VILA FRANCA DE XIRA

201

46

SESIMBRA

115

60

MONCHIQUE

31

40

ALENQUER

88

46

SETÚBAL

294

62

OLHÃO

197

42

ARRUDA DOS VINHOS

10

51

ALCÁCER DO SAL

25

62

SÃO BRÁS DE ALPORTEL

13

40

AZAMBUJA

40

54

GRÂNDOLA

42

60

PORTIMÃO

147

41

CADAVAL

35

54

SANTIAGO DO CACÉM

104

60

SILVES

174

41

LOURINHÃ

39

54

SINES

53

63

TAVIRA

47

42

MAFRA

164

 

 

 

59

VILA DO BISPO

27

42

SOBRAL DE MONTE AGRAÇO

9

 

 

 

63

VILA REAL DE SANTO ANTÓNIO

71

42

TORRES VEDRAS

72

 

 

 

 

 

 

 

Os concelhos de Lisboa (1266); Sintra (1203); Loures (853); Amadora (585) e Almada (436) são os que apresentam mais horários a concurso. Curiosamente, olhando para o top 15 dos agrupamentos (Quadro 6), verifica-se que não há nenhum do concelho de Lisboa, pontuando nos primeiros lugares os agrupamentos de Sintra, juntamente com os de Loures e Amadora.

Quadro 6 – Agrupamento com mais pedidos para contratação de escola

Agrupamento

Horários

1º ciclo

Agrupamento de Escolas Aqua Alba, Agualva, Sintra

188

72

Agrupamento de Escolas Ruy Belo, Sintra

179

136

Agrupamento de Escolas de Queluz-Belas, Sintra

167

104

Agrupamento de Escolas de Silves

129

16

Agrupamento de Escolas Visconde de Juromenha, Sintra

120

102

Agrupamento de Escolas Fernando Namora, Amadora

113

45

Escola Portuguesa de Luanda - Centro de Ensino e da Língua Portuguesa

113

18

Agrupamento de Escolas Luís de Sttau Monteiro, Loures

109

78

Agrupamento de Escolas Professor Paula Nogueira, Olhão

96

69

Agrupamento de Escolas Dr. Azevedo Neves, Amadora

92

28

Agrupamento de Escolas de São João da Talha, Loures

85

30

Agrupamento de Escolas Eduardo Gageiro, Loures

84

34

Agrupamento de Escolas João Villaret, Loures

80

39

Agrupamento de Escolas João de Barros, Seixal

79

17

Agrupamento de Escolas Gil Eanes, Lagos

78

15

 

Reservas de Recrutamento

Um outro indicador fundamental a analisar é o número de disponíveis em reserva de recrutamento, ou seja, o número de docentes na bolsa nacional de contratação, primeiro mecanismo a ser acionado, ao longo do ano, para suprir a falta de um professor.

No ano passado, a última colocação por reserva de recrutamento foi a 6 de dezembro (retomando apenas a 3 de janeiro), enquanto este ano houve duas colocações semanais até aos dias 12 e 17 de dezembro, seguiu-se uma pequena pausa e o processo foi retomado a 29 de dezembro.

Feita a comparação com o ano letivo anterior, constata-se que, este ano, há menos candidaturas e candidatos por colocar, com um número inferior de não colocados na maioria dos grupos de recrutamento, o que, não sendo acompanhado da diminuição de horários a concurso, revela que há cada vez menos candidatos para responder às necessidades do sistema.

Este ano houve 10 215 candidaturas e 7586 candidatos por colocar, enquanto no ano passado o número de candidaturas foi de 11 096 e o de candidatos 8043. Já o facto de o número de candidatos por colocar na RR25 ser inferior - 7538 - indicia que vários docentes viram terminados os seus contratos e regressaram às reservas de recrutamento, situação que não pode implicar a sua exclusão do acesso à vinculação dinâmica no próximo concurso, caso reúnam as restantes condições.

 

Quadro 7 – Candidatos não colocados na Reserva de Recrutamento

GRUPO DE RECRUTAMENTO /

2025/2026

2024/2025

 

ANOS SERVIÇO

CANDIDATURAS

% POR COLOCAR

CANDIDATURAS

% POR COLOCAR

DIFERENÇA

100 - EDUCAÇÃO PRÉ-ESCOLAR

3423

56,49

3183

51,11

7,54

110 - 1º CICLO

1474

32,21

1795

28,32

-17,88

120 - INGLÊS (1º CICLO)

71

22,98

97

18,62

-26,80

200 - PORTUGUÊS E ESTUDOS SOCIAIS

96

22,91

145

26,46

-33,79

210 - PORTUGÊS E FRANCÊS

50

28,90

66

25,29

-24,24

220 - PORTUGUÊS E INGLÊS

29

16,86

54

17,59

-46,30

230 - MATEMÁTICA E CIÊNCIAS NATURAIS

207

25,09

292

25,55

-29,11

240 - EDUCAÇÃO VISUAL E TECNOLÓGICA

95

20,52

138

21,33

-31,16

250 - EDUCAÇÃO MUSICAL

106

34,64

117

30,08

-9,40

260 - EDUCAÇÃO FÍSICA

1301

57,34

1362

56,35

-4,48

290 - EDUCAÇÃO MORAL E RELIGIOSA CATÓLICA

0

0,00

3

5,77

-100,00

300 - PORTUGUÊS

360

28,46

445

26,79

-19,10

310 - LATIM E GREGO

14

31,11

13

19,40

7,69

320 - FRANCÊS

107

29,23

147

29,46

-27,21

330 - INGLÊS

199

29,05

234

25,83

-14,96

340 - ALEMÃO

43

30,94

47

26,70

-8,51

350 - ESPANHOL

39

27,46

40

19,80

-2,50

360 - LÍNGUA GESTUAL

0

0,00

1

100,00

-100,00

400 - HISTÓRIA

86

23,18

83

15,09

3,61

410 - FILOSOFIA

51

20,82

65

20,12

-21,54

420 - GEOGRAFIA

46

20,00

57

17,12

-19,30

430 - ECONOMIA E CONTABILIDADE

23

19,49

36

20,22

-36,11

500 - MATEMÁTICA

272

29,79

371

34,45

-26,68

510 - FÍSICA E QUÍMICA

160

36,12

214

36,71

-25,23

520 - BIOLOGIA E GEOLOGIA

220

40,00

221

34,16

-0,45

530 - EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA

7

20,00

11

29,73

-36,36

540 - ELETROTECNIA

3

15,79

0

0,00

#DIV/0!

550 - INFORMÁTICA

28

16,87

12

6,59

133,33

560 - CIÊNCIAS AGRO-PECUÁRIAS

2

16,67

3

20,00

-33,33

600 - ARTES VISUAIS

41

15,13

42

10,91

-2,38

610 - MÚSICA

24

38,71

28

39,44

-14,29

620 - EDUCAÇÃO FÍSICA

1465

59,43

1541

59,78

-4,93

910 - EDUCAÇÃO ESPECIAL

170

10,63

226

10,16

-24,78

920 - EDUCAÇÃO ESPECIAL 2

2

16,67

3

13,64

-33,33

930 - EDUCAÇÃO ESPECIAL 3

1

6,25

4

11,11

-75,00

TOTAIS

10215

39,64

11096

35,09

-7,94

CANDIDATOS

7586

 

8043

 

-5,68

 

Concurso Externo Extraordinário (CEE)

Apesar de ainda não serem conhecidas as colocações do concurso externo extraordinário, as listas provisórias mostram que o número de candidaturas e de candidatos é inferior ao registado no CEE de 2024: em 2025 são 5027 candidaturas e 4046 candidatos, enquanto em 2024 foram 6499 candidaturas e 4668 candidatos.

Como referido em NCS recente, de 22 de dezembro, neste concurso havia que considerar, ainda, que:

- O número total de candidaturas em 2.ª prioridade (docentes sem qualificação profissional para a docência) é superior ao número de candidaturas em 1.ª prioridade (docentes profissionalizados) – 2865 em 2ª P; 2162 em 1ª P;

- À exceção dos grupos de recrutamento (GR) em que não é possível concorrer com habilitação própria (100, 110, 910, 920 e 930) e do GR 250, o número de candidaturas em 2.ª prioridade supera o de candidaturas em 1.ª prioridade (por exemplo: GR 220 – 8 candidaturas em 1.ª prioridade e 63 em 2.ª; GR 230 – 79 em 1.ª prioridade e 317 em 2.ª; GR 400 – 45 em 1.ª prioridade e 293 em 2.ª);

- Dos 4046 candidatos, 2383 encontravam-se com contrato ativo no momento da candidatura;

- Em alguns grupos de recrutamento, o número de vagas é superior ao número de candidaturas (por exemplo: GR 120 – 45 vagas para 32 candidaturas; GR 220 – 81 vagas para 71 candidaturas; GR 550 – 180 vagas para 172 candidaturas);

- Existem vários grupos de recrutamento em que o número de vagas é superior ao número de candidaturas em 1.ª prioridade;

- Apesar de constarem 1433 docentes do GR 110 nas listas de não colocados das Reservas de Recrutamento, apenas 360 se candidataram ao CEE.

Tudo indica que voltará a verificar-se um número significativo de docentes a vincular apenas com habilitação própria. Torna-se, por isso, indispensável que o MECI assegure instrumentos pedagógicos adequados que permitam a estes docentes desempenhar as suas funções da melhor forma possível, bem como condições efetivas para que possam rapidamente iniciar, e concluir, a profissionalização em serviço.

Em suma, no que ao problema da falta de professores diz respeito: há mais horários em contratação de escola, logo mais alunos sem todos os professores e há menos professores disponíveis para colocar em reserva de recrutamento e menos candidatos a vincular no concurso externo extraordinário, num quadro de crescimento de colocações com habilitação própria. Significa isto que o problema da falta de professores se está a agravar e que a resposta do MECI se circunscreve ao recurso a horas extraordinárias, a aposentados e aposentáveis e a não habilitados profissionalmente.

Confirma-se que não é com medidas pontuais e extraordinárias que se resolve um problema estrutural.

 

II - A REVISÃO DA CARREIRA AMEAÇA DESVALORIZAR A PROFISSÃO

Apesar das intenções declaradas do MECI de resolução do problema, reconhecendo a falta de professores como estrutural e a revisão do ECD uma oportunidade, os factos apontam noutro sentido. O processo tem-se arrastado no tempo e só agora é que está, verdadeiramente, a arrancar. Ao mesmo tempo, o que foi proposto para os três artigos que o MECI inscreve no capítulo “perfil geral do docente, direitos, deveres e garantias”, aponta em sentido contrário ao da resposta à premissa fundamental – tornar a profissão atrativa e valorizada.

Na apreciação enviada ao MECI, no passado dia 31 de dezembro, a FENPROF sublinhava o seguinte: 

A proposta do MECI/governo para a revisão do Estatuto da Carreira Docente (ECD), ao forçar a integração do ReCAP como determinante do perfil geral do docente, procede a uma rutura profunda com a conceção da docência enquanto profissão intelectual, ética e pedagógica, com identidade própria, tal como historicamente consagrada no ECD e, com outra finalidade, o Decreto-Lei n.º 240/2001.

O ReCAP organiza lógicas administrativas e gestionárias, pensadas para a administração pública em geral e para contextos organizacionais hierárquicos, orientados por metas mensuráveis, por resultados imediatos e sequente controlo do desempenho e do mérito aferido em função dos resultados. Não foi concebido para regular profissões educativas, nem para enquadrar relações complexas, neste caso relações pedagógicas, marcadas pela incerteza, pela diversidade dos contextos e pela centralidade do juízo profissional docente.

Ao querer submeter a profissão docente – é disto que se trata – a um referencial como o ReCAP, o MECI/governo promove uma perda de especificidade profissional, diluindo a identidade docente num conjunto de competências abstratas — como “orientação para resultados”, “adaptação” ou “prontidão” — que, descontextualizadas da ação pedagógica, abrem caminho a interpretações arbitrárias, instrumentais e desprofissionalizantes. Nada do que requer a urgente valorização da carreira e a esperada atratividade da profissão. Também a integração “simplificada” do perfil docente no ECD, tal como é descrito globalmente no Decreto-Lei n.º 240/2001 para outra finalidade, não constitui uma mera reorganização normativa.

Com a frontalidade devida, a FENPROF considera estarmos perante uma operação política de apagamento de direitos, aproveitando a revisão estatutária para enfraquecer a identidade profissional dos docentes e submeter a educação a lógicas de gestão pública que lhe são estranhas e que a empobreceriam, ao contrário do que é clamorosamente necessário.

Em vez de valorizar a profissão docente, esta proposta contribui para a sua descaracterização, precarizando simbolicamente o seu estatuto e agravando condições que já hoje afastam muitos profissionais da carreira. Uma política educativa que desconfia dos professores, que os transforma em executores avaliados por grelhas genéricas e que reforça mecanismos de controlo hierárquico não melhora a escola pública — fragiliza-a.

Defender o ECD é, neste contexto, defender a docência como profissão, a escola como espaço pedagógico e a educação como bem público, e não como mera organização administrativa orientada por indicadores e ‘rankings’.

 

III - A RESPOSTA DA FENPROF

Veremos, agora, na reunião negocial de dia 7 de janeiro, qual será a resposta do MECI ao parecer apresentado pela FENPROF. No dia 8 de janeiro teremos um Plenário Nacional online onde discutiremos com os professores o que fazer. A forma como vier a ser concluído este primeiro tema em discussão (está ainda pré-agendada uma reunião negocial para 14 de janeiro) será determinante para decidir se será necessário avançar, ainda durante o mês de janeiro, com uma grande iniciativa de professores.

Vamos manter a greve ao sobretrabalho, horas extraordinárias e componente não letiva de estabelecimento, uma vez que ao nível dos horários e condições de trabalho, os docentes continuam a ser sobrecarregados e a matéria não parece ser prioritária para o MECI no atual processo de revisão do ECD.

Ainda sobre as condições de trabalho na Educação Pré-escolar e no 1.º CEB vamos realizar na próxima sexta-feira, à tarde, uma Concentração / Plenário dos Docentes em Monodocência, junto ao MECI, para proceder à entrega do abaixo-assinado “Por melhores condições de trabalho na Educação Pré-escolar e no 1.º CEB”, documento que já deu entrada na Assembleia da República para tratamento na respetiva Comissão de Educação e Ciência e posteriormente subir a Plenário.

Vamos participar ativamente na Manifestação da CGTP-IN de 13 de janeiro, para entrega na Residência Oficial do Primeiro-ministro do abaixo assinado “Rejeitar o Pacote Laboral. Exigir mais salário e direitos” .

E, por último, aproveitamos para anunciar que entre 19 de fevereiro e 4 de março (Quadro 8), vamos percorrer o país, na Caravana “Somos Professores, damos rosto ao futuro”, onde assinalaremos, em cada distrito, os problemas que ali se colocam à Escola Pública e sublinharemos o contributo que uma boa revisão do ECD traria.

Quadro 8CARAVANA NACIONAL “Somos professores, damos rosto ao futuro”

DATA

DISTRITOS

19 fevereiro

Porto/ Açores / Madeira

20 fevereiro

Braga/ Faro

23 fevereiro

V. Castelo/ Beja

24 fevereiro

Vila Real/ Évora

25 fevereiro

Bragança/ Portalegre

26 fevereiro

Viseu/ Setúbal

27  fevereiro

Guarda / Castelo Branco

2 março

Aveiro / Leiria

3 março

Coimbra / Santarém

4 março

Lisboa

 

É urgente valorizar o ECD, é imprescindível tornar a profissão e a condição docentes atrativas.

 

Lisboa, 5 de janeiro de 2026

O Secretariado Nacional da FENPROF