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Cheirou a mofo na Futurália

16 de março, 2026

A participação do partido Chega na Futurália 2026, realizada na FIL entre 11 e 14 de março, e os conteúdos que lá apresentou suscitam uma profunda preocupação e exigem uma reflexão séria sobre o tipo de espaço que se pretende construir numa iniciativa dirigida aos jovens e ao seu futuro.

Consagra o artigo 13.º da Constituição da República Portuguesa (CRP) que ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.

Apresentar cartazes afirmando “Isto não é mesmo o Bangladesh (mas parece)”, estatísticas sobre o nascimento de imigrantes e tiradas várias sobre a pseudocientífica teoria da Grande Substituição, além de irrazoável, serve de pasto ao discurso de ódio e não respeita o que está constitucionalmente consagrado.

A Futurália deve afirmar-se como um espaço de encontro, de partilha de conhecimento, de abertura ao mundo e de promoção de valores humanistas, democráticos e solidários. Trata-se de uma feira vocacionada para a educação, a formação e a construção de projetos de vida, devendo, por isso, promover o pensamento crítico, o pluralismo e o respeito pelos direitos fundamentais consagrados na CRP.

A participação de forças políticas que difundam discursos impregnados de xenofobia, racismo, discriminação e exclusão contraria esses princípios e não pode ser encarada com normalidade. A promoção de ideias que atentam contra a dignidade humana e contra os valores fundamentais da democracia constitui uma ameaça ao ambiente de liberdade e de respeito que deve caracterizar um espaço educativo e formativo dirigido à juventude.

Mais preocupante se torna esta situação quando se permite que um evento desta natureza seja utilizado como plataforma de propaganda político-partidária que expõe jovens estudantes a mensagens de caráter populista, autoritário e profundamente incompatíveis com os valores inscritos na CRP.

No ano em que se assinalam os 50 anos da Constituição, importa recordar que o texto constitucional português afirma de forma inequívoca o combate ao racismo, à discriminação e às ideologias de matriz fascista. Esses valores não são meras declarações formais: constituem o alicerce da nossa vida democrática e devem ser defendidos em todos os espaços públicos, particularmente naqueles que se dirigem às novas gerações.

A Futurália deve ser um espaço de esperança, de conhecimento e de construção de um futuro mais justo e solidário. Não pode transformar-se num palco para a disseminação de discursos de ódio, de exclusão ou de desvalorização dos princípios democráticos.

Defender os valores da Constituição, da liberdade, da igualdade e da solidariedade é também garantir que os espaços educativos e formativos permanecem lugares de pensamento livre, de debate plural e de construção de uma sociedade verdadeiramente democrática.

 

Lisboa, 16 de março de 2026

O Secretariado Nacional da FENPROF