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FENPROF
26 set 2019 / 15:15

FENPROF exige explicações do Ministério da Educação sobre a organização “Teach For Portugal”

Quem são os alegados “jovens talentos” que o ME está a meter nas salas de aula? Ao que vêm e o que pretendem? 

Que compromissos ME e governo assumiram com aquela multinacional que entrou agora em Portugal?

 

A organização Teach for America

Nos Estados Unidos da América surgiu, há alguns anos, a organização Teach for America que se dispunha a recrutar diplomados de 'alto calibre' para ensinar em escolas socialmente desfavorecidas. Esta organização desenvolveu uma narrativa focada em “diplomados de alta qualidade” a trabalhar nas áreas de maior complexidade social onde, alegadamente, seria mais difícil recrutar professores devidamente qualificados. De acordo com aquela organização, os jovens que fossem recrutados receberiam um treino rápido antes de começarem a trabalhar e, depois, continuariam a treinar “no trabalho”. O princípio seria proporcionar aos jovens uma certa “experiência de trabalho”, na qual estes iriam adquirir algumas competências úteis de emprego para, posteriormente, abandonando o ensino, se dedicarem ao trabalho na sua área específica de formação.

Os sindicatos de professores rapidamente denunciaram esta situação que perverteu o conceito de professor, como profissional formado e qualificado para o exercício de determinadas funções. Rapidamente, porém, alguns governos estaduais se aproveitaram desta mão de obra não qualificada mas barata, sendo exemplo mais negativo o que aconteceu em Nova Orleães depois de o furacão Katrina ter devastado largas áreas da região. O governo do Distrito de Nova Orleães fechou todas as escolas, despedindo os professores, e quando as reabriu foi como escolas Charter (as tais, cujo modelo já foi promovido no nosso país em iniciativas da Fundação Francisco Manuel dos Santos), contratando apenas alguns docentes e substituindo a maioria dos anteriores por gente recrutada pela Teach for America.

 

A multinacional Teach for all

Entretanto, esta organização, que funciona em modo franchising e em grupo fechado, alargou-se a vários países europeus, funcionando em rede. Por exemplo, em Inglaterra designa-se Teach First, e funciona em moldes muito semelhantes ao modelo norte-americano: um treino fortemente concentrado no tempo saindo diretamente para as escolas, sendo que, aqui, muitos destes formandos acabam por ficar definitivamente em escolas (free schools, o correspondente às charter americanas e canadianas), ainda que alguns continuem supervisionados por mentores que acompanham a sua transição para outros empregos. Até lá, estes jovens são de fácil recrutamento e, também, fáceis de explorar, trabalhando sem horário definido e dispostos a fazer tudo o que lhes é pedido para serem vistos e agradarem a quem os poderá levar para o emprego verdadeiramente pretendido. É claro que esta forma de estar no trabalho acaba por se tornar ponto de referência da generalidade das escolas, que procuram alargar o mesmo tipo de abusos e exploração – em horário, tarefas e salário – aos profissionais devidamente qualificados. Estamos, pois, perante uma nova incursão neoliberal no ensino público que, note-se, foi rejeitada pela Escócia, onde esta organização não teve entrada.

 

O tentáculo nacional Teach for Portugal

Esta organização, cujos tentáculos se vão estendendo por todo o mundo, surgiu, agora, no nosso país adotando a designação, adaptada da original, Teach for Portugal. A sessão de lançamento teve lugar no passado dia 17 de setembro e, segundo um relatório que está disponível em inglês no site da organização, esta ingressou na rede global Teach for all em fevereiro passado, criou um designado Instituto de Verão reunindo 18 jovens que o frequentaram durante cinco semanas. Segundo o referido relatório, da responsabilidade de dois dirigentes da organização, este instituto terá tido “tutores” provenientes da Teach for Bulgaria, Teach First (Inglaterra) e Empieza por Educar (Espanha). Ou seja, como acontece com organizações deste tipo, a rede funcionou.

Ainda de acordo com aquele relatório, o Instituto de Verão ter-se-á focado em “três princípios estruturantes: liderar sozinho, liderar a par com os outros e liderar mudanças” e, acrescenta o mesmo, “Todas as sessões começaram com esse belo sentimento de pertencer a algo maior, a algo que sublinha essa mudança. Todas as sessões procuraram fortalecer essa comunidade apaixonada de jovens líderes, dedicando tempo, energia e conhecimento à educação, criando e redesenhando ferramentas educacionais, como jogos, músicas, dramatizações e caças ao tesouro”.

 

FENPROF aguarda esclarecimentos do Ministério da Educação

No final do relato que tem vindo a ser citado afirma-se que “Agora chegou o momento de nos prepararmos para o Outono, altura em que o nosso grupo de participantes vai entrar nas salas de aula no ano letivo que vai começar”. Ora, é isto que está a preocupar a FENPROF:

- Quem são estes “jovens talentos” que o Ministério da Educação terá autorizado a entrar e permanecer nas salas de aula durante a atividade letiva, após frequentarem 5 semanas um Instituto de Verão?

- Que formação tiveram e quem a certificou e avaliou? Os mesmos que tão exigentes são para com os professores?

- Tiveram esses “jovens talentos”, que irão lidar com as crianças e jovens, de apresentar certidão de registo criminal como todos os trabalhadores, docentes e não docentes, das escolas?

- Que compromissos assumiu o Ministério da Educação com esta organização, a ponto de lhes abrir as portas das salas de aula das escolas públicas?

- Qual o grau de envolvimento da Direção-Geral de Educação, cujo logótipo surge em documentos desta organização?

- Por que também surgem os logótipos dos programas de financiamento comunitário “Portugal 2020” e “POCH”?

 

A FENPROF já contactou o Ministro da Educação, a quem solicitou informação, com caráter de urgência, sobre o nível de envolvimento e responsabilidade de Ministério da Educação e Governo num processo que, para a FENPROF é pouco transparente, designadamente nos fins que persegue. A FENPROF questiona que um processo desta natureza tenha avançado sem qualquer debate público ou auscultação aos professores. Se o problema é a falta de docentes que possam garantir o apoio aos alunos das nossas escolas, então, deverão ser recrutados docentes devidamente qualificados e não curiosos, cuja formação foi adquirida em cursos de Verão de uma qualquer organização multinacional, de fins pouco claros, que se estendeu ao nosso país. Foi, igualmente solicitada uma reunião ao Diretor-Geral da Educação, visto que é esta entidade que aparece diretamente associada a tão estranha iniciativa, tendo sido, igualmente, solicitadas reuniões a diretores de escolas onde terão sido “colocados” estes jovens.

A FENPROF já estabeleceu contactos com organizações sindicais de docentes dos Estados Unidos da América e do Reino Unido, estando a recolher mais informações sobre as organizações similares que ali operam há algum tempo.

 

O Secretariado Nacional


 
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