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FENPROF
23 mar 2011 / 10:48

"As pessoas já não se deixam ir no conto do vigário e é também por isso que temos aí a Marcha Nacional de 2 de Abril"

"O ataque à escola pública e aos professores não é apenas um ataque à educação, ao ensino e a uma classe profissional -- é um ataque ao desenvolvimento e ao futuro do país. Neste quadro, naturalmente, o Sindicato dos Inspectores da Educação e do Ensino (SIEE) não podia ficar indiferente a uma iniciativa com as características da Marcha nacional de 2 de Abril, pela qualidade da Educação e em defesa da Escola Pública". 

José Calçada, Presidente da Direcção do SIEE, fala com esta frontalidade de uma iniciativa que vai certamente "sensibilizar a opinião pública" para a necessidade de "cerrar fileiras" em torno de "uma das bases fundamentais da sociedade democrática: a escola pública de qualidade e para todos". Presente desde a primeira hora no lançamento e preparação da Marcha, trabalho que teve como primeira etapa a construção e divulgação do Manifesto «Investir na Educação, defender a Escola Pública» (conferência de imprensa de 10 de Fevereiro), o SIEE é uma das muitas vozes que encara com preocupação, e mesmo com indignação, o actual rumo que os governos deram à educação e à escola pública.
"A situação é demasiado grave para poder passar despercebida!", alerta José Calçada.

Do mesmo lado da barricada

"Como já tive oportunidade de referir em várias sessões públicas, nomeadamente organizadas pelos sindicatos da FENPROF, os Inspectores e os Professores estão do mesmo lado da barricada. E neste caso queremos dizer: estamos com os professores, com os psicólogos, com os pais e encarregados de educação, com os trabalhadores não docentes, com os técnicos, com os estudantes, com os autarcas, com todos os cidadãos que se preocupam com os destinos da escola pública", realça o dirigente sindical.

"É verdade que esta ofensiva não é de agora, mas ninguém de bom senso terá dúvidas de que ela subiu de tom e é hoje muito mais agressiva e preocupante". José Calçada pormenoriza:
"Os responsáveis políticos insistem em fortíssimos cortes orçamentais que conduzem a um desinvestimento efectivo; apostam em políticas  definidas não pelos interesses da Educação e da Escola Pública, mas pelos desígnios orçamentais impostos pela Finanças; impõem medidas extremamente  gravosas que terão forte impacto na organização das escolas e no seu funcionamento, com implicação negativa na qualidade do ensino".

Já não pega a política
do dividir para reinar...


José Calçada não tem papas na língua:
"Esta Marcha, pela diversidade dos apoios que recolhe,  prova que a política do dividir para reinar não dura para sempre. Já não pega colocar pais e encarregados de educação contra professores, já não se diz «perdi os professores, mas ganhei a sociedade», já não pega atacar os magistrados do Ministério Público porque tinham excesso de autonomia, ou os juízes porque tinham férias a mais e eram os responsáveis pela lentidão da justiça... Em síntese: já não pega a política do bode expiatório, atirando as culpas das deficiências do sistema ou da incapacidade governamental para cima de um ou de outro sector socioprofissional, tentando virar a opinião pública contra eles ou contra a função pública no seu conjunto".

E acrescenta:

"As pessoas já não se deixam ir no conto do vigário. É por isso que aí temos a Marcha Nacional de 2 de Abril, envolvendo sectores tão diferenciados. É uma iniciativa com grande significado, não é fácil encontrar por esse mundo fora, em protesto contra o neoliberalismo, uma iniciativa com esta dinâmica, envolvendo uma diversidade tão grande de intervenientes -- e que, para além do mais, alertados pelo rumo que as coisas estão a tomar na educação, tiveram a capacidade de se juntar à volta daquilo que é essencial para o desenvolvimento e para o futuro do país".

 

Mobilizar as pessoas
para defenderem o futuro do país


"Isto chegou a um ponto", alerta José Calçada, "em que é essencial mobilizar as pessoas para defenderem o futuro do país, futuro de que a educação e o ensino constituem partes essenciais. Os ataques não param. Veja-se a frieza com que se anuncia mais um encerramento cego de escolas: mais de 400! Este governo está literalmente a desistir de uma parte do país, está a acelerar a desertificação que diz combater! Para além da educação, este comportamento é de enorme gravidade estratégica mesmo em termos de defesa nacional. Há países e regiões que estão já a fazer marcha atrás nessas políticas. No Estado de Nova Iorque, por exemplo, há 30 anos avançaram para a experiência de unidades tipo mega-agrupamentos; agora estão a voltar atrás. Docentes, especialistas e investigadores são unânimes: a qualidade educativa e o combate ao insucesso escolar não são compatíveis com escolas gigantes.  Por cá, andamos ao contrário. É inaceitável e tem de ser combatido".

A Marcha não pode ser a foz de um rio

Como destaca o Presidente da Direcção do Sindicato dos Inspectores da Educação e do Ensino nesta longa conversa com a reportagem do JF no Porto, "a Marcha não pode ser a foz de um rio, mas sim uma nascente, a nascente de um novo caudal de resistência e de  indignação. Porque todos sabemos que os resultados não se conseguem de um dia para o outro..." E José Calçada dá um exemplo: "O fim da divisão artificial dos professores entre titulares e não-titulares obrigou a um trabalho longo, a inúmeras e poderosas acções de rua e nas escolas, implicou o envolvimento de milhares e milhares de pessoas, que não apenas de professores -- e implicou criar a força de acreditar que essa luta, para além de justa, poderia sair vitoriosa!" 

"Esta luta é uma maratona!"

"O esforço em defesa da escola pública, esta acção convergente, tem que continuar e tenho a certeza que vai prosseguir com forças redobradas. Esta luta é uma maratona. Ninguém pede o unanimismo. Interessa o que nos une: a defesa da escola pública", destaca o sindicalista.
Revelando que "foi muito fácil chegar a acordo entre todas as partes para construir o Manifesto", Calçada sublinha que "é em defesa de um efectivo investimento na Educação que os subscritores se manifestam; é em defesa de uma Escola Pública de qualidade, gratuita e inclusiva, em suma, democrática, que os subscritores do Manifesto se unem; é para os cortes que incidem sobre aspectos essenciais das escolas e, por essa razão, potenciam rupturas insanáveis no seu funcionamento, que os subscritores alertam a sociedade portuguesa". Um alerta que, garante, vai ser erguido com milhares de vozes nas ruas de Lisboa.

O poder político também não ficará indiferente? José Calçada não hesita:

"Não devia. Mas agora faço eu outra pergunta: onde é que está o poder político?  No Ministério da Educação ou no das Finanças? No Governo português ou na Senhora Merkl? Mas nunca nos esqueçamos: pode levar mais ou menos tempo, pode ser uma luta mais ou menos dura, pode ter avanços e retrocessos, mas o nosso povo acabará por impor uma escola pública democrática, inclusiva e de qualidade. Não estamos a lutar pelos professores, pelos inspectores ou por qualquer grupo profissional: estamos a lutar pelas nossas crianças e pelos nossos jovens, estamos a lutar pela construção de um futuro mais justo e solidário para o nosso país. A Marcha é para isso!"

“É preciso outra organização”

Para José Calçada, os actuais problemas da educação e do ensino não se resumem aos efeitos de uma política acelerada de desinvestimento."É preciso outra organização. E, para isso, são fundamentais dois caminhos: possibilitar a autonomia real das escolas e ganhar os professores para os desafios da profissão.
Atacando um grupo profissional, não se vai lá. Quando não se ganham as pessoas, não se vai a lado nenhum… E o Governo continua ao ataque. Como é que podemos interpretar, por exemplo, a situação que está a ser criada aos professores que vão corrigir os exames do secundário, a sobrecarga com horários de trabalho, a inviabilização do concurso em 2011? Isto não são ataques aos profissionais? Assim, não se mobilizam professores!" / JPO

Entrevista publicada na edição de Março do JF

 

 

 


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