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17 jun 2019 / 18:57

Quem semeia desinvestimentos colhe indisciplina

O que é a indisciplina? Será que é o mesmo para todos e todas? De facto, o que é considerado indisciplina para uns pode não o ser para outros. De qualquer modo, à partida é um comportamento considerado inadequado, uma manifestação de recusa, de indignação, de revolta, de confronto, de desinteresse ou simplesmente uma necessidade de os alunos se manifestarem, sendo que a indisciplina tem fortes implicações no processo de aprendizagem e na relação entre os seus intervenientes.

A gestão do trabalho na sala de aula é, antes de mais, uma gestão de relações. É a nossa interpretação destas situações de confronto, muitas vezes num sentimento de profunda solidão, que nos leva a entender a sala de aula como um campo de batalha onde se vai agravando o fosso entre professores e alunos.

Como se faz a resolução de conflitos? Que suportes existem na escola para ajudar os professores? Que espaços existem no tempo dos docentes para reflexão e aprofundamento dos problemas reais emergentes? Como nos podemos entreajudar na escola, esmagados por horários sobrecarregados, burocracias inúteis e reuniões muitas vezes sem sentido?

E, no entanto, sabemos que tem sido pela troca de experiências entre colegas, na partilha  das mesmas dificuldades e, sobretudo, na vontade de tentar resolver em conjunto um problema que não é individual, mas de todos, que se vai fazendo face a questões como a da indisciplina.

Por outro lado, as pressões exercidas sobre as escolas, os professores e os alunos obrigam a aprendizagens fast food e não deixam tempo para sistematizar conhecimentos. A vertigem do que é exigido esmaga as componentes afetiva, relacional, cultural em que se inscreve toda a complexidade da aprendizagem.

Os currículos extensos e desadequados às faixas etárias a que se destinam continuam a coexistir e a competir com as aprendizagens essenciais, ambos como normas em vigor, embora contraditórias, que os professores têm de gerir.

As aprendizagens necessitam de tempo para os alunos as interiorizarem através da experimentação, da interação, da possibilidade de errar e de refletir. Ninguém aprende sozinho e a escola é também um espaço de socialização, de aprender a viver com os outros, em cooperação, o que dificilmente se consegue no contexto de enorme competição que se vive atualmente nas escolas, por via do sistema de avaliação vigente. 

O bem-estar dos alunos e dos professores, na escola, deve ter por base a construção de climas de cooperação.

Mas como se podem criar equipas estáveis e de cooperação, tendo em conta a instabilidade provocada pela mobilidade do corpo docente decorrente da existência de um elevado número de professores contratados? Como criar figuras que se constituam como referência para os alunos se todos os anos uma boa parte dos docentes muda de escola e os que não mudam estão demasiado envelhecidos e desmotivados? 

O ministério da educação continua a enterrar a cabeça na areia face às necessidades das escolas e da educação. Faltam inúmeras estruturas de apoio e de participação. Falta tempo e disponibilidade aos professores para investirem na sua formação, para refletirem e para interagir com outros profissionais na escola. Os horários sobrecarregados e a burocracia impedem os professores de pensar e de planear em conjunto projetos de integração, de diálogo e de inclusão. Por sua vez, a desvalorização social, por parte do ME e da sociedade em geral, desmotiva cada vez mais os profissionais.

Nas escolas faltam assistentes operacionais que possam acompanhar devidamente os alunos nos diversos espaços escolares, faltam equipas técnicas especializadas para prestar cuidados e apoios físicos e psíquicos à população escolar. Faltam estruturas de apoio para o desenvolvimento de diversas atividades, bem como espaços estimulantes que envolvam os alunos em situações construtivas. Faltam mediadores de conflitos, bem como espaços de diálogo e de vivências democráticos. Os alunos necessitam de estruturas e de espaços para serem ouvidos. As escolas, na sua organização, têm de contar com a voz de quem as integra.

Com a implementação de um modelo de gestão que não é democrático dificilmente se podem criar estruturas de cooperação. 

Mais do que a punição devemos apostar na prevenção e cabe ao ME:

- Alterar o modelo de gestão das escolas porque a democracia é essencial à participação

- Criar equipas educativas que incluam profissionais e técnicos de diversas áreas

- Alterar os currículos (porque menos é mais)

- Valorizar os profissionais de educação e ouvir os docentes que estão nas escolas

- Promover formação contínua que vá ao encontro das necessidades docentes para esta área

- Aumentar o número de assistentes operacionais em cada escola

- Alterar os horários (por forma a permitir que os professores disponham de mais tempo para refletir e às crianças e jovens mais tempo livre e não escolarizado)

- Diminuir o número de alunos por turma / diminuir o número de turmas por professor (para ser possível um acompanhamento mais individualizado de cada criança ou jovem)

- Aumentar os recursos humanos e materiais em cada escola (por forma a diversificar as atividades de aprendizagem).

 

Nas escolas temos de nos unir em vez de nos dividirmos: 

- Criar nas escolas grupos de reflexão sobre a ação e sobre as questões da indisciplina (reivindicando tempos incluídos no seu horário de trabalho).

- Criar espaços e estruturas de participação das crianças e jovens na organização da sala e do espaço escolar.

- Organizarem-se para promover/reivindicar mediadores nas escolas.

- Fomentar o diálogo entre as escolas e as famílias.

- Promover ambientes de cooperação, de partilha e de trabalho de equipa nas escolas, de forma a envolver os alunos.

- Eliminar ambientes e práticas de competição e promover práticas de cooperação e inclusão.

- Promover a existência de turmas e grupos heterogéneos como forma de potenciar a interajuda.

- Defender (com outros setores profissionais) uma alteração da legislação laboral de modo a permitir às famílias um maior acompanhamento de crianças e jovens em idade escolar.

 

Temos propostas, exigimos soluções para que as escolas deixem de ser espaços de violência e se tornem espaços sem fronteiras, espaços de aprendizagem, de democracia e de bem-estar.

Queremos que as escolas sejam o mundo e que os mundos sejam a escola.

 


 
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