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 13º Congresso dos Professores
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14 jun 2019 / 11:14

Intervenção do Secretário Geral da FENPROF

13.º Congresso Nacional dos Professores

Sessão de Abertura

 

Mário Nogueira

Secretário-Geral da FENPROF

 

Exm.º Secretário-Geral da Internacional de Educação, Companheiro e Amigo David Edwards

Exm.º Presidente do Conselho Nacional da FENPROF, Camarada João Cunha Serra

Exm.ºs Senhores Convidados nacionais e estrangeiros ao 13.º Congresso da FENPROF

Caros Amigos, funcionários da FENPROF e dos Sindicatos de Professores, trabalhadores de apoio e representantes de entidades apoiantes

Amigos, Colegas e Camaradas Professores, Educadores e Investigadores, delegados ao 13.º Congresso Nacional dos Professores,

 

Um forte Abraço a todos, mais apertado, ainda, aos que aqui representam os heróis da nossa Escola, aqueles que, com o seu trabalho, têm obtido excelentes resultados. Apesar das condições de trabalho com que se confrontam, dos ataques de que têm sido alvo e do desrespeito por direitos que deveriam ser inalienáveis, os Professores em Portugal, com o seu esforço, dedicação, empenhamento e, muitas vezes, sacrifício pessoal, baixaram os níveis de insucesso escolar a mínimos históricos, o mesmo acontecendo com o abandono escolar, e, reconhecidamente, têm contribuído para o sucesso educativo dos seus alunos. Ou seja, como advogava Bento de Jesus Caraça, têm contribuído para desenvolver neles as mais diversas qualidades, tanto no domínio intelectual, como físico, artístico, moral e ético, preparando-os para uma intervenção ativa e consciente na sociedade.

É certo que, no universo político e dos chamados opinion-makers são raros os que conseguem dizer “Obrigado” aos professores, mas, muito mais importante que o agradecimento desses, é o reconhecimento da esmagadora maioria dos alunos e das suas famílias, que continua bem visível nos estudos de opinião que, regularmente, são divulgados. Para a FENPROF é uma honra e um orgulho ser, em Portugal, a organização mais representativa destes extraordinários profissionais. Que este seja um Grande Congresso, de onde possamos sair ainda mais fortes, solidários e determinados para continuar a lutar pela profissão, mas também pela Escola Pública e por uma Educação de qualidade.

 

O tempo que vivemos é de elevada complexidade. No plano internacional, apesar da forte resistência de muitos, é inegável que o capital tem vindo a ganhar espaço. Usa os meios que tem ao seu dispor, desde logo os meios de comunicação social, para, sem decoro, manipular em massa, não se coibindo de mentir e, assim, falsear a realidade e branqueia políticos que, contrariamente ao que por vezes se ouve, não são populistas, são mesmo fascistas, como Trump, Bolsonaro, o sujeito que homenageia a tortura e os seus executores, mas também Órban, Salvini, Strache, Marine le Pen, entre outros.

 

A hegemonia que o capitalismo está a conseguir no mundo é perigosa, pois a sua insaciável ganância, o seu permanente propósito de acumular mais e mais riqueza, leva-o a desenvolver as mais radicais formas de exploração dos trabalhadores, sendo que, com facilidade, esse radicalismo poderá levá-lo a resvalar para formas violentas e intolerantes de governação. O discurso populista, nacionalista e xenófobo vai penetrando por terrenos que se tornaram permeáveis pelo desencanto, frustrações e desilusões daqueles que perderam direitos, quantas vezes em cenários políticos que julgavam ser favoráveis, não viram satisfeitos justos anseios e legítimas reivindicações, constataram que o seu dinheiro, o dinheiro público, foi usado para tapar buracos abertos por atos de má gestão ou corrupção e, ainda, dos que temem pela sua segurança, principalmente em países em que a criminalidade alastra. Nesta Europa, e não só, politicamente dirigida pela direita e/ou pela social-democracia, não podem deixar de ser assacadas responsabilidades aos decisores políticos pelos tempos negativos e perigosos que estamos a viver.

 

Uma última palavra, que é de solidariedade, para os sindicalistas e outros combatentes pelas liberdades e pelos direitos dos trabalhadores que são vítimas de perseguição, prisão, tortura e, até, assassinato em países como a Turquia, Colômbia, Honduras, Argentina, Barhrein, Arábia Saudita ou Filipinas; também para os que veem violados os mais elementares direitos, desde logo o direito à vida, como acontece com o povo palestino, saharauí ou rohingya; e, já agora, para os cidadãos que, em várias partes do mundo, são perseguidos e presos por defenderem o elementar direito à autodeterminação, questão que não deixa indiferente os portugueses que, ainda esta semana, no dia 10, celebraram, com festa, 379 anos de independência.

 

 

Em Portugal, sem escamotear avanços registados ao longo da legislatura, que resultam, essencialmente, da luta desenvolvida pelos trabalhadores e da atual correlação de forças na Assembleia da República, continuamos a ter profundas e gravíssimas injustiças, carências de vária ordem e largas manchas de pobreza e exclusão, problemas que resultam do facto de o governo do PS ter preferido, em muitos momentos e sem necessidade de o fazer, juntar-se à direita em vez de, respeitando o quadro político parlamentar, dar resposta às justas reivindicações dos trabalhadores, aos justos anseios das populações e às indispensáveis mudanças de que o nosso País  tanto necessita. Particularmente, em relação às questões do trabalho, o governo do PS convergiu sempre com a direita, mantendo e até acentuando o desequilíbrio da relação laboral a favor dos patrões. A confirmá-lo esteve a postura do governo em relação ao código de trabalho, optando por manter as suas normas mais gravosas como a da caducidade, e não repondo o princípio do tratamento mais favorável, para além das propostas que mantém em cima da mesa para próxima votação no Parlamento.

Ao não optar por um rumo claro de progresso, desenvolvimento e justiça social, o governo confirmou o seu compromisso com os interesses do grande capital, bem como a sua submissão às chantagens e imposições de uma troika que, embora, fisicamente, fora de Portugal, continua a impor constrangimentos e a ditar exigências que o atual governo não só acata, como vai mais longe, apesar de, com isso, penalizar ainda mais os portugueses. Exemplo disso é o que se passa com o défice. Quanto à dívida dita pública, verificamos que o seu valor absoluto não baixa, tendo novamente ultrapassado, em março, os 250 mil milhões, mais 4 mil milhões que um ano antes. Podemo-nos iludir dizendo que baixou em percentagem do PIB, mas a verdade é que esta dívida é impagável. Apesar disso, o governo continua a recusar renegociá-la, como deveria, no seu valor, prazo e juros.

Esta postura do governo em relação ao défice e à dívida reflete-se nos salários, pensões e outros apoios sociais, que continuam muito baixos, e no emprego criado que, por norma, é precário, mal remunerado, sem direitos e sujeito a horários muito longos e desregulados.

Tem sido assim no setor privado, mas também no público. Neste, a negociação coletiva não passa de um faz-de-conta e se alguns problemas mereceram resposta esta deveu-se ao protesto e luta dos trabalhadores e, em boa parte, a decisões do Parlamento. Muitos problemas arrastam-se, sendo desrespeitados direitos, agravadas condições de trabalho e deixando-se envelhecer uma Administração Pública que já é das mais velhas da União Europeia. Ademais, os salários não são atualizados há uma década, o descongelamento das carreiras tem sido uma verdadeira trapalhada em quase todos os setores da Administração Pública, os horários de trabalho, apesar de repostas as 35 horas, continuam, em muitas áreas, a ultrapassar o limite legal e a aposentação, para muitos, continua a ser uma miragem que se move a velocidade superior à do tempo que passa.

É verdade que o atual governo não tem a veia privatizadora do anterior e até se reclama defensor do serviço público, designadamente do Serviço Nacional de Saúde e da Escola Pública. Mas de que vale o discurso se não lhe corresponder a prática? De que vale dizer que defende o SNS se continua a asfixiá-lo com cortes orçamentais e a manter escandalosas PPP? De que vale falar de Escola Pública, mas não reverter o curso de desinvestimento que teve lugar na legislatura anterior, quando a direita foi governo? Temos de exigir mais, muito mais, a um governo que é diluviano nas palavras, mas avarento nos atos.

Em Portugal, o dinheiro só não falta para os bancos (foram quase 24 mil milhões numa dúzia de anos), para ruinosas parcerias público-privadas e para generosos benefícios fiscais destinados aos que mais têm, mais podem e mais deveriam pagar para o bem-estar coletivo. São milhares de milhões sempre disponíveis para tapar buracos abertos por atos de má-gestão, é o compadrio que chega aos lugares mais elevados da vida política e é a corrupção que, em nomes atribuídos a processos e operações, já superou as ocorrências climáticas. Destas, recordamos a tempestade Miguel, porque foi a última, e o furacão Leslie, pela sua violência; já no que respeita à corrupção vêm-nos logo à cabeça a Operação Teia, a Operação Marquês, a Operação Face Oculta, a Operação e-Toupeira, a Operação Fizz, a Lex, a Rollerball, a Fénix e tantas outras neste país que se diz ser de brandos costumes, mas, pelo que se tem visto, é de maus vícios.

Quanto à Educação, todos sabemos o que aconteceu ao longo da legislatura e o estado a que chegámos nesta área. O óbice do défice levou o governo a reduzir o investimento público e essa falta de investimento reflete-se nas carências que as escolas apresentam, nas deficientes condições de trabalho dos profissionais e no caráter pouco mais que simbólico de algumas medidas, como a redução do número de alunos por turma, cujo impacto foi residual, ou o regime de educação inclusiva em que a inclusão quase se esgota no preâmbulo.

A ação dos professores e da FENPROF não se limitou às questões de ordem socioprofissional. As nossas preocupações, ações e lutas específicas respeitaram um dos nossos mais sagrados princípios: o que diz respeito à escola e à educação diz respeito aos professores, logo, também aos seus sindicatos.

Defendemos um financiamento público adequado da Educação e contestámos a crescente dependência de fundos europeus que, a não ser travada, rapidamente se traduzirá em mais ingerência externa também neste domínio.

Envolvemo-nos em campanhas, iniciativas, ações e lutas destinadas a valorizar a Escola Pública e, de uma forma mais geral, a Educação. Exigimos o regresso da democracia à gestão das escolas; defendemos uma efetiva autonomia só possível, precisamente, num quadro de gestão democrática das escolas e de valorização dos seus órgãos pedagógicos; apresentámos propostas concretas para uma educação verdadeiramente inclusiva; acompanhámos o processo de flexibilidade curricular que, independentemente da bondade (ainda por provar) dos objetivos, se tem desenvolvido à custa dos professores, a quem se impôs uma ainda maior sobrecarga de trabalho; contestámos o inadequado modelo de financiamento do ensino profissional. E também mantivemos a denúncia de, em muitas escolas, o amianto continuar por remover e, até, em alguns casos, por ser devidamente sinalizado; juntámo-nos aos que têm denunciado a insuficiência de trabalhadores não docentes nas escolas, tanto auxiliares, como técnicos especializados e a precariedade que afeta grande parte destes profissionais. Acompanhámos a abertura de cada ano letivo nas escolas, colocando dedos nas feridas, só não conseguindo assinalar todas porque os dedos foram insuficientes.

Relativamente aos professores, os problemas arrastaram-se porque várias medidas anunciadas não tiveram aplicação significativa e muitos dos compromissos assumidos foram, simplesmente, ignorados. Também por isso, soaram a hipocrisia os elogios aos professores feitos por António Costa, na semana passada. Não esquecemos que o Primeiro-Ministro foi o rosto de um governo que, não raras vezes, desrespeitou e desconsiderou os professores, desprezando os seus direitos, não hesitando em recorrer à chantagem – a ponto de ameaçar demitir-se se o tempo de serviço cumprido pelos professores fosse integralmente recuperado – e tentando virar as populações contra os professores, como fez quando colocou em alternativa a recomposição da carreira docente ou as obras de requalificação do degradado e perigoso IP3. Escusa agora António Costa, com a proximidade das eleições, tecer loas aos professores, pois a prática do governo que lidera foi contrária à sua valorização profissional, social e material. A carreira sai esfrangalhada da legislatura e os problemas relativos à aposentação, horários de trabalho, precariedade ou concursos continuam por resolver.

A FENPROF, como organização sindical de todos os professores não se cingiu ao setor público. Interveio no privado e cooperativo. Bateu-se contra um contrato coletivo de trabalho, assinado por alguns, que agravou as condições de trabalho dos docentes do setor; negociou, lutou e ainda não deu por perdida essa batalha. A FENPROF interveio no privado puro, no privado contratualizado, nas IPSS, nas Misericórdias, no profissional e no ensino artístico especializado. Juntou os professores no debate e na reflexão, nunca virou a cara à negociação, mas também nunca cedeu, recusando assinar acordos contrários aos direitos e interesses dos professores.

A FENPROF também se envolveu muito na ação com os docentes do ensino superior e os investigadores. Uma luta, igualmente, difícil, por muitos motivos, incluindo a dificuldade de mobilização e a escassez de quadros sindicais do setor, mas não baixou os braços e os nossos camaradas que, de há dois anos para cá, acompanham o PREVPAP (programa que deveria garantir a regularização de vínculos precários) têm sido verdadeiros heróis de resistência e dedicação a uma causa que diz muito aos sindicatos: o combate à precariedade. Pelas dificuldades que têm enfrentado, percebe-se que essa é questão que diz pouquíssimo a um governo que, no seu programa, garantia determinação nesse combate. Já agora, a um governo que se fez refém de reitorias e presidências, no caso do politécnico, a quem agrada ter mão de obra qualificada, mas barata e precária.

Para além da precariedade, que também continua a afetar a totalidade dos nossos leitores, os problemas de carreira, a não abertura de concursos, a aplicação de normas laborais privadas para a contratação no setor público, o regime fundacional, que permite esta reprovável promiscuidade público-privada, o débil financiamento público do ensino superior e da ciência são, entre outros, problemas a que a FENPROF tem procurado dar resposta, ainda que sabendo que no Ministério que tutela o setor reside um governante que é peso-pluma, logo, sem capacidade de decisão.

Na Educação Pré-Escolar e nos Ensinos Básico e Secundário, para além de muitos outros problemas que afetam grupos de professores – os colegas de teatro, os do ainda designado nível 2 de vencimento, os educadores que exerceram ou exercem funções em creche, entre outros – a FENPROF colocou 4 questões como prioridades reivindicativas:

- Combater o problema do envelhecimento dos professores, já os segundos mais velhos da União Europeia, exigindo a negociação de um regime específico de aposentação que, simultaneamente, liberte quem trabalha há décadas e permita rejuvenescer e renovar o corpo docente das escolas, criando nelas novas dinâmicas. O Ministério da Educação conhece o problema, comprometeu-se a resolvê-lo, mas nada fez para honrar o compromisso;

- Resolver ou atenuar o problema do desgaste e exaustão emocional, que está na origem de uma situação gravíssima de burnout e leva 84% dos professores a afirmar que, se pudessem, se aposentariam já. Fator principal deste problema é a sobrecarga horária e de trabalho imposta aos professores. Componente letiva reduzida a aulas, perversão da componente não letiva, imposição de reuniões em horário destinado a trabalho individual, burocracia e mais burocracia impõem aos professores mais de 46 horas semanais de trabalho, ou seja, 11 acima das legalmente previstas;

- Pôr fim à precariedade, uma chaga que continua a afetar milhares de docentes. De uma forma implacável todos os que trabalham nas AEC, mas também, de forma violenta, milhares de educadores e professores que todos os anos, nas escolas, com vínculo laboral precário, satisfazem necessidades permanentes. O governo engana a comissão europeia, fintando-a com a chamada norma-travão. Aparentemente, os docentes ingressam nos quadros quando completam 3 anos de serviço, mas só aparentemente, pois foram impostos critérios restritivos que o impedem. Prova disso são as listas de colocação que saíram a semana passada: em mais de 34 000 candidatos, só 542 vincularam, sendo que a média de tempo de serviço dos que ingressaram é de 15 anos de serviço, havendo quem tenha precisado de 35 para ingressar no quadro; em relação à idade, a média dos que entraram nos quadros é de 44,3 anos, havendo quem só aos 64,7 anos se tivesse livrado da precariedade, ou seja, a 2 anos de se aposentar;

- Refazer a carreira docente que tantos anos de luta custou a gerações de professores e, neste âmbito, garantir a sua recomposição, que passa por recuperar integralmente o tempo de serviço que os professores cumpriram, posicionando-os no escalão devido. Isso passa, desde logo, por recuperar, também aqui no continente, os 9 anos, 4 meses e 2 dias em que as carreiras estiveram congeladas e que serão recuperados na Madeira e nos Açores. No continente ainda só foi contabilizado 30% desse tempo, mas se alguém pensa ser possível roubar os restantes 70% aos professores pensa mal, porque os professores não o permitirão.

O governo foi intransigente ao longo de mais de ano e meio, tempo de duração de uma das mais longas farsas negociais na Educação. Recusou discutir a proposta dos sindicatos e roubou mais de 6,5 anos de serviço cumprido, mas os 2 anos, 9 meses e 18 dias que foram recuperados não são um ponto de chegada, como pretenderia o governo, mas um ponto intermédio da recuperação integral. Lembro que há 3 anos, quando se realizou o 12.º Congresso, a carreira estava congelada; um ano depois, em 2017, lutámos para que a carreira docente também fosse descongelada, pois isso não estava nos planos do governo; no ano seguinte, conseguido o descongelamento, a luta passou a ser pela recuperação do tempo de serviço, tendo o governo afirmado que essa hipótese não existia; um ano depois, os professores estão a optar pela modalidade menos penalizadora de recuperar 2 anos, 9 meses e 18 dias…

Houve um inegável progresso, mas o roubo persiste! Há 6 anos, 6 meses e 23 dias que ainda estão por recuperar, por isso, até que tal aconteça, não desistimos. Pela frente teremos diversos momentos de luta, destacando, desde já, aquele que levará, de novo, milhares de professores à rua: a Manifestação Nacional do próximo dia 5 de outubro, Dia Mundial do Professor, que, desta vez, tem a importância acrescida de ser véspera de eleições legislativas.

Colegas, ao longo da legislatura nunca fizemos, porque rejeitamos, a luta pela luta, mas também nunca lhe virámos a cara quando ela se justificava. No início, quando estavam a ser tomadas medidas positivas, a direita acusou-nos de termos desaparecido e deixado de protestar; entretanto, na segunda metade da legislatura, gente afeta ao atual governo afirmou que lutávamos mais contra este que contra o anterior… Estas acusações confirmam que, como decidimos no nosso anterior congresso, negociámos quando tivemos de negociar, lutámos quando houve que lutar e, apesar da inédita solução governativa existente no nosso país, para a FENPROF não passou a ser bom o que era mau. Quando a luta se tornou necessária, lutámos, e quando o discurso teve de se tornar duro, não fomos de meias palavras. É assim que somos e desenganem-se os que pensam que a FENPROF age consoante a cor política de quem governa. Isso nunca acontecerá porque o único compromisso que temos é com aqueles que somos e representamos: os professores, educadores e investigadores de Portugal.

Não exigimos o céu e as nossas exigências têm sempre em conta a exequibilidade e sustentabilidade da solução, razão por que demonstrámos abertura, em todos os processos passados, para soluções de aplicação faseada. Mas não admitimos ser desrespeitados nem roubados em direitos que são nossos e dos quais não abdicamos!

Obtivemos resultados, sim, e registamo-los com satisfação nos projetos de Programa de Ação e de Resolução sobre a Ação Reivindicativa que apresentamos a este Congresso, mas estamos longe de nos darmos por satisfeitos, tanto é o que falta alcançar. Mas, independentemente do que alcançámos e do que ainda nos falta, chegamos a este congresso de cabeça levantada porque lutámos. Lutámos muito. Longe de esgotar os momentos de luta do nosso mandato, recordo:

- Em 2016: a Tribuna em defesa da Escola Pública, a Marcha em Defesa da Escola Pública, que reuniu mais de 80 000 participantes, ou, ainda, a Petição em defesa da Escola Pública que reuniu mais de 77 000 subscritores. Tínhamos saído de uma legislatura que colocara em risco a Escola Pública!

- Em 2017, o desfile em Lisboa com uma faixa de 600 metros, contendo 1 100 fotografias de professores exibindo as suas reivindicações; a greve de 21 de junho; a Campanha “Valorizar a Educação e os seus Profissionais; 2017/2018 tempo de resolver problemas”, que se iniciou em setembro e prolongou por diversos meses; a Concentração e desfile de docentes do ensino particular e cooperativo; um novo dia de greve em 15 de novembro que, para além da grande adesão que teve, permitiu que milhares se juntassem frente à Assembleia da República quando esta discutia o Orçamento para a Educação;

- Em 2018, a concentração que juntou quase todos os docentes de LGP; a Concentração de docentes do ensino superior e investigadores em luta contra a precariedade que, já em 2019, se repetiu, então com a inauguração do Monumento ao Precário Desconhecido; a Manifestação Nacional de Professores de 19 de maio, contra o apagão de tempo de serviço; entre 18 de junho e 13 de julho, greve às avaliações de final de ano, que adiou a realização de mais de 60 000 reuniões de conselho de turma; os encontros sobre o desgaste dos professores, onde foram apresentados e discutidos os resultados do estudo realizado por investigadores da Universidade Nova de Lisboa, uma iniciativa feita em parceria com a FENPROF; 11 de julho, Grande Concentração junto ao Ministério enquanto se realizava mais um episódio da farsa negocial por ele promovida; em 5 de outubro, Grande Manifestação Nacional a assinalar o Dia Mundial do Professor; em 29 de outubro iniciou-se a greve ao “sobretrabalho” que ainda hoje se mantém, prolongando-se até 21 de junho, último dia de aulas do ano letivo; a entrega, na presidência do Conselho de Ministros, de mais de 20 000 postais assinados por cidadãos de apoio à luta dos professores; o desfile de pais-natal para entregar caixas vazias ao governo para que este as enchesse com soluções para os problemas; o excelente encontro de aposentados para assinalar o aniversário do seu 1.º Congresso Nacional;

- Em 2019, retomámos a campanha pela gestão democrática das escolas, recolhendo, em pouco tempo, mais de 10 000 assinaturas numa petição entregue na Assembleia da República; a entrega, também na Assembleia da República, de mais de 60 000 assinaturas de professores, a maior petição de sempre com assinaturas de um só grupo profissional e que foi, igualmente, a maior petição entregue no Parlamento nesta legislatura e a quinta maior dos 45 anos da Democracia; em 23 de março, em convergência com outras organizações, voltámos a encher o Terreiro do Paço, com uma enorme Manifestação Nacional de Professores.

Poderia ter optado por me referir aos ataques desferidos contra a profissão docente e a toda a campanha que alguma gente, incluindo governantes, tem movido contra os professores; como poderia não ter ignorado um ministro que começou por propor reuniões trimestrais com os sindicatos, passou a bloquear negociações e a atentar contra o direito à greve e acaba desaparecido; porém, optei por me referir à luta, lembrando uma pequena parte do extenso relatório de atividades que apresentaremos ao Congresso. Fi-lo porque é de luta que se alimenta a vida em todos os seus domínios e porque será de luta que alimentaremos o percurso que iremos prosseguir. Sabemos que só uma forte ação e luta reivindicativas nos permitirá defender o estatuto da carreira docente que, explicitamente, está sob a mira de vários governantes e da direita parlamentar. Também optei por não me centrar nos estatutos de carreira, desde logo o ECD, porque, sendo o tema do nosso Congresso, não só devido aos ataques que lhe têm sido movidos, mas por se assinalarem, em breve, 30 anos de vigência, ele estará no centro do debate que faremos.

Neste Congresso iremos, ainda, discutir e definir a estratégia sindical para o próximo mandato; tomar posição sobre aspetos que são cada vez mais importantes na nossa vida coletiva, como a igualdade de género, o ambiente, os problemas climáticos ou a biodiversidade; eleger a direção da FENPROF para mais um mandato de ação e luta com vista à concretização de objetivos que ainda não foram conseguidos ou apenas se concretizaram parcialmente; também teremos tempo para reafirmar a nossa matriz sindical de classe e o modelo de sindicalismo combativo, alicerçado numa forte presença nas escolas.

Termino, Camaradas e Amigos, com a certeza que saberemos resistir, lutar e vencer neste tempo em que se pretende apagar parte da vida profissional dos docentes, se negam respostas a problemas que se arrastam há anos, se degradam condições de trabalho e vida dos professores e se desenvolvem insidiosas campanhas contra estes profissionais, procurando feri-los no que há de mais sagrado, a sua dignidade. Essa certeza registou-a o nosso colega Paulo Ilharco, em poema, quando percebeu, no passado mês de maio, que a recuperação integral do tempo de serviço seria chumbada no Parlamento. Deixo-vos o último verso, que sintetiza tudo o que escreveu:

Meu Abril é o ano inteiro!

Minha voz, a Liberdade!

Roube a corja o meu tinteiro,

Mas jamais a Dignidade!!!

Viva a FENPROF! Vivam os professores, os educadores e os investigadores! Viva a luta dos trabalhadores!


 
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